As fêmeas da Calopteryx virgo podem submergir-se na água durante quase uma hora e meia só para depositar os ovos nos caules de plantas aquáticas submersas — um comportamento pouco comum entre as libélulas.
Conhecida como a bela-donzela ou donzela-azul em vários países europeus, esta espécie pertence à família Calopterygidae, dentro da ordem Odonata. Distribui-se por grande parte da Europa, Norte de África e Ásia Ocidental, associada quase sempre a águas correntes e limpas. A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica-a como pouco preocupante, mas a espécie é extremamente sensível à qualidade da água, o que a torna um indicador valioso da saúde dos rios onde vive.
Identificação e Aparência
O traço mais distintivo da Calopteryx virgo é a coloração quase totalmente pigmentada das asas nos machos, mais extensa do que em qualquer outra espécie do género presente na sua área de distribuição. Trata-se de uma libélula grande e escura, com um comprimento do corpo entre 49–54 milímetros e asas posteriores de 31–37 milímetros, olhos pequenos e laterais em forma de hemisfério, e dois pares de asas semelhantes entre si, percorridas por uma densa rede de veias.
A espécie apresenta um dimorfismo sexual marcado. Os machos adultos têm o corpo metálico azul-esverdeado e olhos azul-esverdeados, com asas que, depois de atingida a maturidade, assumem um tom azul metálico; nos indivíduos jovens, as asas são ainda castanhas. As fêmeas têm asas castanhas iridescentes, com uma mancha branca perto da ponta (a pseudopterostigma), e o corpo metálico verde com a ponta do abdómen em tom de bronze.
As larvas têm forma de bastão, com pernas longas terminadas em garras fortes, e o corpo pouco achatado mas muito fino, uma adaptação discreta à vida em águas correntes. Na última fase de desenvolvimento medem entre 3,5–4,6 milímetros e pesam cerca de 4 miligramas, sendo ligeiramente mais pequenas do que as da espécie aparentada Calopteryx splendens. Distinguem-se desta pelas cerdas presentes nas brânquias do abdómen.
A Calopteryx splendens, ou donzela-de-bandas, é a espécie mais semelhante e mais facilmente confundida com a Calopteryx virgo, mas os machos desta última têm as asas muito mais extensamente pigmentadas.
Distribuição e Habitat
A Calopteryx virgo distribui-se por quase toda a Europa, com exceção do sudoeste da Península Ibérica, das ilhas Baleares, da Sardenha, da Sicília e da Islândia. Para norte, a sua presença estende-se até ao Oceano Ártico, bastante mais a norte do que a Calopteryx splendens, e para sul alcança Marrocos e a Argélia. Ocorre sobretudo em zonas de baixa altitude, embora possa ser encontrada regularmente até cerca de 980 metros e, ocasionalmente, até 1.200 metros em regiões como os Alpes.
Os adultos e as larvas vivem sobretudo junto a riachos e cursos de água de pequena a média dimensão, com temperatura relativamente baixa e corrente moderada a rápida, evitando águas eutrofizadas. Na parte norte da sua área de ocorrência, como na Noruega e na Finlândia, a espécie também é encontrada junto a rios de média dimensão. Estas águas situam-se normalmente perto de zonas florestais.
As larvas dependem fortemente da vegetação aquática submersa, como a elódea e o ranúnculo-de-água, agarrando-se aos caules e folhas sobretudo em zonas de corrente mais forte. Preferem águas mais calmas do que as da Calopteryx splendens, já que o fluxo mais lento permite uma absorção mais eficaz de oxigénio, sendo raríssima a sua presença em água parada. A temperatura é outro fator decisivo: a espécie prefere águas frescas e sombreadas, com uma temperatura média estival ótima entre os 13–18 °C, surgindo lesões nas larvas e redução da eclosão dos ovos acima dos 22 °C.
Os adultos frequentam habitats próximos dos das larvas, mas podem também ser vistos em clareiras florestais, pousando em árvores, arbustos e plantas herbáceas altas, como a urtiga-maior.

Comportamento e Modo de Vida
Os machos da Calopteryx virgo são fortemente territoriais, defendendo zonas junto à água que contenham locais adequados para a postura dos ovos. A defesa faz-se sobretudo através de gestos ameaçadores e da exibição das asas abertas, mas pode tornar-se bastante agressiva quando há poucos machos presentes na área, diminuindo a intensidade da agressão à medida que o número de competidores aumenta. Do seu poleiro, o macho realiza um comportamento chamado "wing lapping", em que bate as asas rapidamente para baixo e as levanta devagar, servindo provavelmente para comunicação e possivelmente também para regular a temperatura do tórax.
Os adultos emergem entre o final de abril e o final de setembro, com o pico de eclosão entre o final de maio e o final de junho. Depois de emergirem, os jovens permanecem cerca de dez dias junto ao local de eclosão, até as asas atingirem a coloração definitiva, regressando então à água para iniciar o acasalamento. Os adultos vivem apenas uma estação, com uma longevidade de cerca de 40 a 50 dias.
Os machos chegam à água normalmente entre as 7h e as 9h da manhã na Europa Central, permanecendo depois em zonas soalheiras ao longo do dia e regressando à mesma vegetação ao anoitecer. As fêmeas voam sobre a água ao longo do dia à procura de locais adequados para pôr os ovos, podendo percorrer distâncias de até 6 quilómetros por dia, enquanto os machos raramente se afastam mais de 20–100 metros das suas zonas de reprodução, caça e repouso.
Estudos experimentais mostraram que os machos vencedores de disputas territoriais apresentam maior competência imunitária e reservas de gordura mais elevadas, sugerindo um compromisso entre a resistência a parasitas e o custo energético da defesa territorial. Observou-se ainda que, em zonas onde a Calopteryx virgo é mais comum, os machos de Calopteryx splendens desenvolvem manchas de pigmentação nas asas mais pequenas, possivelmente como resposta à agressão interespecífica, já que a Calopteryx virgo vence sempre estas disputas territoriais.
Caça e Dieta
A Calopteryx virgo caça durante as horas quentes do meio-dia, period em que tanto machos como fêmeas se dedicam à captura de presas junto à água, além de namorar e pôr ovos. A espécie alimenta-se predominantemente de pequenos insetos capturados em voo ou pousados na vegetação ribeirinha.
Entre as presas registadas destacam-se pequenos dípteros quironomídeos, sobretudo do género Corynoneura, que surgem repetidamente associados a esta espécie nos registos disponíveis. Estes insetos minúsculos, ligados a ambientes aquáticos e ripícolas, correspondem bem ao tipo de habitat onde a Calopteryx virgo caça, junto a riachos de corrente moderada a rápida.
Reprodução e Ciclo de Vida
O cortejo da Calopteryx virgo começa quando a fêmea voa sobre a água à procura de um local adequado para pôr os ovos, atravessando os territórios dos machos pelo caminho. O macho aproxima-se então com voos acrobáticos exibindo a face inferior do abdómen, cujos três últimos segmentos são muito mais brilhantes e são mostrados à fêmea como parte da exibição. Depois, conduz a fêmea até um local de postura, voa em círculo à sua volta e espera, suspenso no ar, até ela pousar, sinal de que está disposta a acasalar.
O par forma então a chamada "roda de acasalamento", que pode durar entre 40 segundos e cinco minutos. Após o acasalamento, o macho mostra à fêmea o local de postura; ela entra num curto período de repouso pós-cópula, com o abdómen pendente, antes de seguir o macho.
Os ovos são postos nos caules de plantas aquáticas, ao nível da água ou abaixo dela, podendo a fêmea permanecer submersa até 90 minutos durante o processo. De forma incomum entre as libélulas, a fêmea trepa de cabeça para baixo pelo caule e espeta os ovos verticalmente com o ovipositor, podendo depositar até 300 ovos de cada vez; os ovos eclodem cerca de 14 dias depois. Enquanto a fêmea põe os ovos, o macho permanece por cima, defendendo-a de outros machos. Ambos os sexos acasalam várias vezes por dia ao longo de várias semanas até à morte.
As larvas desenvolvem-se durante cerca de dois anos, passando por dez a doze fases, cada uma terminando numa muda, e passam o inverno enterradas em lodo ou lama.
Conservação e Ameaças
A Calopteryx virgo é classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza como pouco preocupante a nível global. No entanto, trata-se de uma espécie estenoica, com exigências ecológicas muito restritas: as larvas só conseguem sobreviver em águas naturais com pouca influência humana, estando ausentes de grandes cidades e centros industriais e sendo raras mesmo em regiões com uso agrícola intenso. Por isso, o Livro Vermelho da Alemanha de 1998 classifica-a como ameaçada em alguns estados, chegando a considerá-la em perigo de extinção, situação semelhante à registada na Áustria, na Suíça e noutros países da Europa Central.
A principal ameaça identificada é a eutrofização das águas por efluentes domésticos ou agrícolas, que provoca proliferação de algas, reduz o oxigénio disponível e altera o tipo de vegetação presente, tornando-a inadequada para a postura dos ovos. A acumulação de algas e partículas de sujidade nas brânquias das larvas também compromete a sua respiração, e o processo tende a culminar no assoreamento dos cursos de água. Paradoxalmente, águas naturais com baixa poluição também podem deixar de ser habitat adequado se plantas de crescimento rápido, como a rainha-dos-prados, a urtiga ou o bálsamo-do-Himalaia, cobrirem a área, ou se o crescimento das árvores nas margens fechar o dossel e privar os insetos de luz solar.
Significado Cultural
Calopteryx virgo é frequentemente associada, na cultura popular de diversas regiões europeias, à ideia de pureza e à presença de águas limpas e saudáveis, já que sua ocorrência está ligada a ambientes aquáticos bem preservados.
A aparência metálica e brilhante do macho, com suas asas escuras, tornou essa espécie um motivo recorrente em representações artísticas e fotográficas da fauna de riachos e rios europeus, sendo um símbolo visual associado à beleza da vida junto às margens de cursos de água.
Curiosidades
- O nome científico Calopteryx deriva do grego e significa "asas belas", enquanto o epíteto *virgo", do latim "virgem", remete para a delicadeza do corpo da espécie.
- Em disputas territoriais entre espécies, a Calopteryx virgo vence sempre os confrontos contra a Calopteryx splendens, apesar de ambas partilharem o mesmo tipo de habitat ribeirinho.
Fotos
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Ecologia e classificação
Classificação
- Filo
- Arthropoda
- Classe
- Insecta
- Ordem
- Odonata
- Família
- Calopterygidae
- Gênero
- Calopteryx
- Espécie
- Calopteryx virgo
Fontes
- GBIF Species names and classification
- iNaturalist Photos
- Wikidata Common names and conservation status
- Wikipedia Summary extract
- Encyclopedia of Life Habitat, diet and behavior traits
- GloBI What it eats, what eats it, parasites and pollinators
- trophiCH



