O consumo de grãos contaminados por este fungo pode causar ergotismo, uma intoxicação grave que afetou populações humanas e animais ao longo de séculos. O Claviceps purpurea, conhecido como esporão-do-centeio, é um fungo que se desenvolve nas espigas do centeio e de cereais e gramíneas forrageiras relacionadas, substituindo os grãos por uma estrutura de sobrevivência escura chamada esclerócio.
Este fungo afeta principalmente espécies de fecundação cruzada com flores abertas, como o centeio (Secale cereale), além de triticale, trigo e cevada, atingindo a aveia apenas raramente. A sua importância vai muito além da agricultura: ligações a episódios históricos de intoxicação coletiva tornam-no um dos fungos mais estudados pela ciência e pela história da medicina.
Corpo de Frutificação e Identificação
A estrutura mais identificável do Claviceps purpurea é o esclerócio, um corpo duro e escuro que se forma dentro da casca da flor infetada, substituindo o grão que normalmente se desenvolveria ali. Antes de atingir esta forma final, a infeção passa por uma fase inicial visível como um tecido branco e mole, designado Sphacelia segetum, que produz um exsudado açucarado conhecido como "honeydew" (mela) e que frequentemente escorre das flores infetadas da gramínea.
Com o tempo, este tecido mole converte-se no esclerócio rígido e seco, dentro do qual se acumulam alcaloides e lípidos, como o ácido ricinoleico. Quando o esclerócio maduro cai ao solo e germina, formam-se um ou vários corpos de frutificação com cabeça e pé, de coloração variável, com um aspeto que recorda um cogumelo em miniatura.
Na cabeça destes corpos de frutificação desenvolvem-se estruturas chamadas perítecios, onde se formam esporos sexuados filamentosos, os ascósporos, responsáveis por reiniciar o ciclo de infeção.
Distribuição e Habitat
O esporão-do-centeio associa-se a um número muito amplo de gramíneas hospedeiras, distribuídas por diferentes grupos ecológicos. Entre as gramíneas mais comuns afetadas estão Agrostis canina, Alopecurus myosuroides, Alopecurus pratensis, Bromus arvensis, Bromus hordeaceus, Bromus inermis, Festuca arundinacea, Elymus repens, Nardus stricta, Poa annua, Poa pratensis, Phleum pratense e Phalaris arundinacea, entre outras, incluindo géneros como Stipa, Danthonia, Molinia e Rytidosperma.
Existe ainda uma variedade associada a gramíneas de sapal costeiro, como Spartina e Distichlis, e outra ligada ao género Setaria. Esta diversidade de hospedeiros reflete-se numa distribuição ampla, abrangendo desde campos agrícolas de cereais até pastagens naturais e zonas húmidas salgadas.
Registos de observações mostram uma concentração muito clara entre julho e outubro, com um pico entre agosto e setembro. Estes números, provenientes de bases de dados como o GBIF, representam apenas observações de presença e não medem abundância real nem delimitam a distribuição completa da espécie — mas sugerem que a fase de frutificação visível do fungo é predominantemente estival e outonal, coincidindo com a floração das gramíneas hospedeiras.

Ciclo de Vida
O ciclo do esporão-do-centeio começa quando um ascósporo infeta a flor aberta de uma gramínea, imitando o comportamento de um grão de pólen que fecunda o ovário durante a polinização. Como a infeção depende do acesso do esporo ao estigma, as plantas afetadas são sobretudo espécies de fecundação cruzada e flores abertas, como o centeio e Alopecurus.
O micélio fúngico em proliferação destrói o ovário da planta e liga-se ao feixe vascular que originalmente alimentaria a semente em desenvolvimento. Nesta fase, produz o tecido mole Sphacelia segetum, que gera esporos assexuados (conídios) dispersos por insetos ou chuva para outras flores. Mais tarde, este tecido converte-se no esclerócio rígido, que acumula alcaloides e cai ao solo, onde permanece dormente até condições favoráveis — como o início da primavera ou períodos de chuva — desencadearem a germinação e a formação de novos corpos de frutificação.
A vespa social Polistes dorsalis foi registada como vetor de dispersão do fungo: partículas de conídios ficam presas ao corpo do inseto durante o seu forrageamento e são transportadas entre flores. Moscas e traças também transportam conídios de espécies de Claviceps, embora não esteja confirmado se estes insetos contribuem efetivamente para a propagação entre plantas sãs e infetadas.
Usos e História Cultural
Alguns investigadores propõem que os rituais extáticos da Grécia Antiga possam ter sido alimentados pelo consumo de grãos infetados por este fungo tóxico e alucinógeno. Um dos subprodutos da infeção pelo esporão-do-centeio nos grãos é o LSA, um composto quimicamente precursor do ácido lisérgico, a base da substância conhecida como LSD.
Esta ligação entre o fungo e experiências alteradas de consciência tornou-o um objeto de interesse histórico e científico, presente em coleções dedicadas à história da medicina. O esporão-do-centeio surge, assim, não apenas como uma ameaça agrícola, mas também como um elemento estudado na intersecção entre micologia, farmacologia e história cultural.
Curiosidades
- Existe uma variedade específica, Claviceps purpurea var. spartinae, adaptada a gramíneas de sapal salgado como Spartina e Distichlis.
- O tamanho e a forma dos esclerócios não são bons indicadores para distinguir variedades do fungo, pois dependem em grande parte do tamanho e forma da flor hospedeira.
- O tamanho dos conídios pode dar alguma indicação sobre a variedade, mas varia significativamente devido à pressão osmótica, tornando-o um critério pouco fiável isoladamente.
- Desde que os humanos começaram a cultivar cereais como trigo, centeio, cevada e aveia, ficaram expostos ao risco de intoxicação pelo esporão-do-centeio.
Ecologia
Habitat
- Zona Úmida
- Pradaria



