A Araucaria araucana é a espécie mais resistente ao frio de todo o gênero Araucaria, capaz de sobreviver a condições que matariam qualquer outro parente tropical do grupo.
Trata-se de uma conífera da família Araucariaceae, nativa das regiões central e sul do Chile e do oeste da Argentina. Pode atingir entre 30 e 40 metros de altura, com troncos de 1 a 1,5 metro de diâmetro, erguendo-se como marcos vegetais nas encostas andinas.
Conhecida localmente como pewen, pehuén ou piñonero, e chamada em inglês de "monkey-puzzle tree", essa árvore carrega uma história que une biologia, cultura e sobrevivência em paisagens vulcânicas — um roteiro que vale a pena conhecer em detalhes.
Identificação e Aparência
O traço mais reconhecível da Araucaria araucana são suas folhas grossas, rígidas e em forma de escama triangular, com bordas e pontas afiadas, que cobrem quase toda a árvore, poupando apenas os ramos mais antigos. Cada folha mede entre 3 e 4 cm de comprimento e 1 a 3 cm de largura na base, e pode permanecer viva e presa ao ramo por até 24 anos, segundo Lusk (2001).
A árvore atinge de 30 a 40 metros de altura e troncos de 1 a 1,5 metro de diâmetro, protegidos por uma casca espessa, de até 15 cm, que pode funcionar como defesa contra incêndios florestais.
A espécie é geralmente dioica, com cones masculinos e femininos em árvores separadas, embora ocasionalmente um mesmo indivíduo produza os dois tipos. Os cones masculinos (polínicos) são alongados, em forma de pepino, medindo inicialmente 4 cm e expandindo-se para 8–12 cm de comprimento por 5–6 cm de largura no momento da liberação do pólen, que é dispersado pelo vento. Os cones femininos (de semente) são globosos, medem de 12 a 20 cm de diâmetro, amadurecem no outono cerca de 18 meses após a polinização e contêm por volta de 200 sementes, liberadas quando o cone se desintegra.
As sementes têm forma de noz e medem entre 3 e 4 cm de comprimento, característica que ajuda a distingui-las de outras coníferas da região.
Distribuição e Habitat
A Araucaria araucana ocorre nas encostas mais baixas dos Andes centro-sul do Chile e da Argentina, em altitudes entre 1.000 e 1.700 metros. No litoral chileno, a espécie alcança pontos tão ao sul quanto Villa Las Araucarias (38°30' S), onde cresce a apenas 640 metros de altitude.
Prefere solos vulcânicos, bem drenados e levemente ácidos, mas tolera praticamente qualquer tipo de solo desde que a drenagem seja eficiente. Costuma formar florestas mistas com a lenga (Nothofagus pumilio), destacando-se acima do dossel dessas árvores decíduas menores. As mudas, por sua vez, raramente competem bem com outras espécies e só se estabelecem em clareiras do dossel ou em áreas expostas e isoladas — por isso é quase impossível encontrar araucárias adultas ao lado de Chusquea culeou, Nothofagus dombeyi ou Nothofagus pumilio, que tendem a superá-las na disputa por espaço.
Nos estágios jovens, a árvore apresenta forma piramidal ou cônica, que se transforma, com a maturidade, na característica copa em guarda-chuva observada nos exemplares adultos.
Registros de observação da espécie mostram um pico em abril, seguido por outro em janeiro, mas esses números refletem apenas a frequência de avistamentos, não a abundância real da população nem os limites completos de sua distribuição nativa.

Reprodução e Ciclo de Vida
A Araucaria araucana é uma espécie de masting, ou seja, produz grandes quantidades de sementes de forma sincronizada apenas em determinados anos, e não continuamente.
Roedores desempenham papel fundamental na dispersão das sementes: o rato-de-pelo-longo (Abrothrix longipilis) é considerado o principal responsável, pois enterra as sementes inteiras em locais favoráveis à germinação, um comportamento raro entre os demais consumidores de sementes.
O periquito-austral também atua como agente dispersor importante. Como as árvores adultas resistem bem a grandes perturbações ecológicas, como erupções vulcânicas, esses periquitos ajudam a levar sementes para longe das áreas afetadas, contribuindo para a recolonização da paisagem.
Usos e Relação com as Pessoas
Para o povo mapuche, a Araucaria araucana — chamada pewen — é um ser sagrado, fornecedor de alimento por meio do piñón e símbolo de sabedoria, resiliência e conexão profunda com a terra. Uma antiga crença sustenta que falar ao passar perto da árvore traria má sorte ou faria a pessoa desenvolver um rabo de macaco.
Fora de seu habitat nativo, a espécie se tornou uma árvore ornamental popular, cultivada pelo efeito incomum de seus ramos grossos e "reptilianos", de aparência muito simétrica. É a mais resistente ao frio entre todas as araucárias, suportando temperaturas de até −20 °C, o que permite seu cultivo em climas oceânicos temperados da Europa, na costa oeste da América do Norte até o Alasca, na costa leste até Long Island, no sul do Chile, na Nova Zelândia e no sudeste da Austrália. Tolera respingos salinos do litoral, mas não suporta bem a poluição do ar.
Sua madeira, valorizada no passado pelo tronco longo e reto, era usada em dormentes de ferrovias e, antes da proteção legal de 1990, em serrarias da região de Araucanía para a fabricação de compensados e lâminas de madeira, graças à durabilidade e resistência ao apodrecimento. Hoje o comércio internacional da espécie é regulado pelo Apêndice I da CITES, que proíbe o comércio comercial de exemplares de origem silvestre. No século XIX, o coletor William Lobb enviou milhares de sementes da região de Araucanía para a Inglaterra, dando origem a populações hoje naturalizadas em locais como o bosque de Kyloe, na Inglaterra.
Conservação e Ameaças
A Araucaria araucana é avaliada pela Lista Vermelha da IUCN (Premoli, Quiroga & Gardner, 2013), que reconhece a espécie como ameaçada por uma combinação de fatores humanos e naturais.
A exploração madeireira, por muito tempo a principal ameaça, foi proibida em 1990. Ainda assim, grandes incêndios entre 2001 e 2002 destruíram milhares de hectares de floresta de araucárias, incluindo árvores com mais de 1.300 anos dentro de parques nacionais.
O pastoreio excessivo de gado, a presença de árvores invasoras e a coleta intensiva de piñones (as sementes comestíveis) também comprometem a regeneração natural da espécie, já que a retirada de sementes reduz o número de novas mudas. Mamíferos não nativos que se alimentam de sementes agravam esse problema, embora um estudo tenha constatado que espécies nativas de predadores de semente ainda causam mais destruição do que as invasoras — possivelmente porque as populações introduzidas ainda são recentes e pouco numerosas. A pecuária praticada por pequenos produtores e por grandes empresas madeireiras dentro da área de distribuição da espécie também prejudica seriamente a regeneração de mudas.
Projetos como o Global Trees Campaign, que plantou 2.000 árvores da espécie, registraram uma taxa de sobrevivência de 90% após dez anos, mostrando que ações de reflorestamento bem manejadas podem fazer diferença real.
Curiosidades
- É a árvore nacional do Chile, ligada à identidade e à história do país.
- As sementes, chamadas piñones, lembram pinhões comuns mas são muito maiores — exemplares registrados de duas árvores diferentes mediram 5 cm e 3 cm de comprimento depois de tostados.
- Segundo uma crença tradicional mapuche, falar ao passar perto da árvore traria má sorte, podendo até fazer a pessoa desenvolver um rabo de macaco.
- O nome em inglês, "monkey-puzzle tree", nasceu de uma lenda segundo a qual seus ramos labirínticos deixariam qualquer macaco confuso ao tentar escalá-la.
- Para o povo mapuche, a árvore é considerada um ser sagrado e um símbolo de sabedoria e resiliência.
Ecologia
Habitat
- Floresta
- Montanha
Hábito de crescimento
- Árvore



