O espadarte é um dos poucos peixes capazes de aquecer os próprios olhos e o cérebro acima da temperatura da água ao redor, uma adaptação que aguça sua visão para caçar em profundidade.
Único membro da família Xiphiidae, o Xiphias gladius é um peixe predador altamente migratório, reconhecido por seu longo bico achatado em forma de espada. Vive amplamente nas águas tropicais e temperadas do Atlântico, Pacífico e Índico, classificado como Quase Ameaçado pela IUCN.
Com até 4,55 metros de comprimento e 650 quilos, combina velocidade, alcance de profundidade e uma longa história de interação com a pesca humana, o que faz dele uma espécie tão fascinante quanto vulnerável.
Identificação e Aparência
O traço mais marcante do espadarte é o seu longo bico achatado em forma de espada, que distingue a espécie de qualquer outro peixe. O corpo é alongado e arredondado, e na fase adulta o animal perde todos os dentes e escamas.
Os exemplares costumam medir cerca de 3 metros, mas já foram registrados indivíduos de até 4,55 metros e 682 quilos. As fêmeas são maiores que os machos, e os espadartes do Pacífico atingem tamanhos maiores que os do noroeste do Atlântico e do Mediterrâneo.
A maturidade sexual chega entre os 4 e 5 anos de idade, e acredita-se que a espécie viva pelo menos 9 anos, havendo registro de uma fêmea de 16 anos e um macho de 12 anos. Como os otólitos são pequenos demais para uso confiável, a idade é estimada com dificuldade a partir dos anéis anuais nos raios das nadadeiras.
Sendo um animal ectotérmico, o espadarte compensa a falta de regulação térmica corporal geral com órgãos especializados que aquecem apenas olhos e cérebro — mecanismo compartilhado com outras 21 espécies de peixes, incluindo marlins, atuns e alguns tubarões.
Distribuição e Habitat
O espadarte ocorre amplamente nas águas tropicais e temperadas do Atlântico, Pacífico e Índico, geralmente entre a superfície e 550 metros de profundidade, podendo excepcionalmente alcançar quase 2.878 metros.
Os registros de observação ao longo do ano mostram um padrão sazonal: a presença aumenta claramente na primavera e no início do verão do hemisfério norte, com pico em maio, e diminui de forma constante até o inverno, quando os números chegam a menos da metade do valor máximo.
Esse padrão sugere uma presença mais marcada em certas épocas do ano em determinadas áreas, compatível com o comportamento migratório da espécie, que se desloca em busca de águas com temperaturas adequadas para alimentação e reprodução.

Caça e Dieta
O espadarte confia sobretudo em sua velocidade e agilidade na água para localizar e capturar presas, deslocando-se sozinho ou em agrupamentos muito dispersos, com até 10 metros entre indivíduos vizinhos — ele não forma cardumes. Ao contrário da imagem popular de que usa o bico para espetar presas como um espeto, evidências sugerem que o espadarte usa a espada principalmente para golpear e ferir os alvos, enfraquecendo-os antes da captura; presas grandes são golpeadas dessa forma, enquanto as pequenas são engolidas inteiras.
A espécie costuma alimentar-se diariamente, principalmente à noite, quando sobe à superfície e às águas próximas dela em busca de peixes menores. Durante o dia, permanece geralmente a profundidades de até 550 metros, podendo descer excepcionalmente a quase 2.878 metros.
Prefere águas entre 18 e 22 °C, mas tolera uma faixa ampla, de 5 a 27 °C, e migra em direção a regiões mais frias no verão para se alimentar. Os adultos consomem uma grande variedade de peixes pelágicos, como cavalas, barracudinas, merluzas-prateadas, peixes-rocha, arenques e peixes-lanterna, além de peixes demersais, lulas e crustáceos. Um estudo no noroeste do Atlântico, baseado no conteúdo estomacal de 168 indivíduos, encontrou lulas em 82% deles e peixes em 53%, incluindo bacalhaus, escombrídeos, peixe-manteiga, enchova-azul e lançola.
Os saltos espetaculares pelos quais a espécie é conhecida, chamados de breaching, podem servir para livrar-se de parasitas externos como remoras e lampreias.
Reprodução e Ciclo de Vida
A desova do espadarte ocorre em lotes (batch spawning) e varia conforme a região e a estação. No Pacífico Norte, ocorre principalmente em águas acima de 24 °C durante a primavera e o verão, sendo contínua ao longo do ano no Pacífico equatorial. No Atlântico Norte, é conhecida no Mar dos Sargaços, em águas acima de 23 °C e com menos de 75 metros de profundidade. No Atlântico Sul, ao largo do sul do Brasil, a desova acontece de novembro a fevereiro, enquanto no Caribe e em outras regiões quentes do Atlântico oeste ocorre durante todo o ano.
Fêmeas maiores carregam mais ovos que as menores, com registros entre 1 milhão e 29 milhões de ovos por desova. Os ovos, pelágicos, medem entre 1,6 e 1,8 milímetro de diâmetro, e o desenvolvimento embrionário ocorre cerca de dois dias e meio após a fertilização.
As larvas, de aparência única e de vida superficial, medem cerca de 4 milímetros ao eclodir. O bico característico da espécie já se torna visível quando as larvas atingem cerca de 1 centímetro de comprimento.
Conservação e Ameaças
O espadarte é classificado como Quase Ameaçado pela IUCN, um status que reflete pressões relevantes, mas ainda não críticas, sobre suas populações globais.
A principal ameaça é a pesca humana intensiva: apenas no Atlântico Norte, a captura anual reportada em 2019 chegou a 1,3 milhão de quilos. Essa pressão pode intensificar a disputa por presas entre o espadarte e outros predadores marinhos, como tubarões. Entre os predadores naturais estão orcas, esporadicamente cachalotes, e o tubarão-mako-de-barbatana-curta — já foram encontrados makos mortos ou moribundos com pedaços de espada de espadarte cravados na cabeça, evidência do risco que essa presa também representa para seus predadores. Filhotes são muito mais vulneráveis, servindo de alimento a diversos peixes predadores.
A situação varia por região: no Atlântico Norte, o estoque está totalmente recuperado, com biomassa cerca de 5% acima da meta. Já no Índico há indícios de sobrepesca, e no Mediterrâneo a mortalidade por pesca excede o nível máximo recomendado, tornando essas populações de alta preocupação para a conservação; os estoques do noroeste do Pacífico e do Atlântico Sul carecem de avaliações robustas. Em 2010, o Greenpeace International incluiu o espadarte em sua lista vermelha de frutos do mar.
Significado Cultural
Na região do Estreito de Messina e nas tradições pesqueiras sicilianas, o espadarte é um símbolo sazonal, retratado como um rival pronto para o duelo, empunhando uma lâmina que testa a coragem e a habilidade do pescador.
O uso e a relação da espécie com os humanos também aparecem em episódios dramáticos: casos raros mas documentados relatam pescadores e até uma surfista feridos ou mortos por golpes do bico do animal, um lembrete do poder físico dessa arma natural mesmo fora do contexto de caça.
O nome "espadarte" também foi emprestado pela astronomia como outra denominação para a constelação de Dorado, e a palavra em inglês "swordfish" tornou-se uma senha famosa no filme dos Irmãos Marx de 1932, Horse Feathers, tendo desde então reaparecido como senha em diversos outros filmes, séries, livros e jogos.
Curiosidades
- O bico do espadarte é usado sobretudo para golpear e ferir presas, não para espetá-las como se costuma imaginar.
- A carne de alguns exemplares pode adquirir um tom alaranjado, atribuído à dieta rica em camarão, sendo vendida como "pumpkin swordfish" e valorizada por isso.
- Existe uma disputa religiosa sobre se o espadarte é kosher: a opinião ortodoxa tradicional diz que não, mas o judaísmo conservador o considera kosher, já que o peixe nasce com escamas e as perde ao atingir cerca de 1 metro de comprimento.
- Em 2007, um pescador morreu depois que o bico de um espadarte perfurou seu olho e atingiu o crânio; em 2024, uma surfista italiana morreu após ser atingida por um espadarte na Indonésia.
Fotos
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Ecologia e classificação
Classificação
- Filo
- Chordata
- Ordem
- Perciformes
- Família
- Xiphiidae
- Gênero
- Xiphias
- Espécie
- Xiphias gladius
Fontes
- GBIF Species names and classification
- iNaturalist Photos
- Wikidata Common names and conservation status
- Wikipedia Summary extract



