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Rhinella marina

Rhinella marina

Sem nome popular registrado

LCPouco preocupante
Sapo grande de pele seca e verrugosa, coloração acinzentada a marrom-oliva, com grandes glândulas parótidas atrás dos olhos e íris douradaFoto: via iNaturalist, licensed under CC0 1.0., CC0

Medidas

Peso
0,105–0,105 kg
Expectativa de vida
≤ 24,8 anos
Classificação
Filo
Chordata
Classe
Amphibia
Ordem
Anura
Família
Bufonidae
Gênero
Rhinella
Espécie
Rhinella marina

O sapo-cururu produz, em suas glândulas parótidas, uma secreção leitosa tão potente que pode matar cães e outros predadores em poucos minutos — um mecanismo de defesa que ajudou a torná-lo uma das espécies mais bem-sucedidas, e mais problemáticas, já introduzidas pelo ser humano.

Nativo do sul e da América Central continental, Rhinella marina é o maior representante da família Bufonidae, uma rã terrestre robusta encontrada originalmente do Vale do Rio Grande, no Texas, até a Amazônia central e o sudeste do Peru. Levado por ação humana a ilhas do Pacífico, ao Caribe e ao norte da Austrália, hoje ocupa um território muito mais amplo do que o original. A IUCN classifica a espécie como Pouco Preocupante, um status que reflete sua abundância e ampla distribuição, não sua segurança para os ecossistemas onde foi introduzida.

Poucas espécies ilustram tão bem o contraste entre sucesso biológico e desequilíbrio ecológico: o mesmo veneno que protege o sapo-cururu de predadores nativos devastou populações de répteis e mamíferos em regiões onde a espécie nunca deveria ter chegado.

Identificação e Aparência

As fêmeas do sapo-cururu são visivelmente maiores que os machos, atingindo entre 10 e 15 cm de comprimento, com recordes de até 24 cm — o que faz da espécie a maior de toda a família Bufonidae. Pode pesar até 105 gramas. Na natureza vive tipicamente entre 10 e 15 anos, embora um exemplar em cativeiro tenha alcançado 35 anos. Curiosamente, sapos maiores costumam ocorrer em áreas de menor densidade populacional.

A pele é seca e coberta de verrugas, com cristas distintas acima dos olhos que se estendem pelo focinho. A coloração varia entre cinza, amarelado, marrom-avermelhado e marrom-oliva, com padrões irregulares. Atrás de cada olho há uma grande glândula parótida, responsável pela produção do veneno. O ventre é claro, de tom creme, às vezes com manchas escuras ou acastanhadas. As pupilas são horizontais e as írises douradas. Os dedos dos pés têm uma membrana carnuda na base, enquanto os das mãos permanecem livres de membrana.

Os filhotes recém-metamorfoseados diferem bastante dos adultos: têm pele lisa e escura, por vezes com um tom avermelhado, e ainda não desenvolveram as grandes glândulas parótidas — por isso são geralmente menos tóxicos. Os girinos são pequenos, uniformemente negros, vivem no fundo da água e costumam formar cardumes; medem entre 10 e 25 mm.

Distribuição e Habitat

A distribuição original do sapo-cururu vai do Vale do Rio Grande, no sul do Texas, até a Amazônia central e o sudeste do Peru, incluindo ilhas continentais próximas à Venezuela, como Trinidad e Tobago. Essa área abrange ambientes tropicais e semiáridos. Em seu território nativo, a espécie ocorre em densidades muito mais baixas do que nas regiões onde foi introduzida — cerca de 20 adultos por 100 metros de margem na América do Sul, apenas 1 a 2% da densidade observada na Austrália.

Prefere áreas florestadas com água semipermanente próxima, embora, em seu habitat original, a folhagem densa das florestas subtropicais limite sua dispersão. Fora dessas florestas, mostra clara preferência por ambientes alterados pelo ser humano, como jardins e valas de drenagem, além de ocupar campos abertos e áreas de vegetação arbustiva.

Antes da década de 1840, o sapo-cururu já havia sido levado à Martinica e a Barbados, a partir da Guiana Francesa e da Guiana. Em 1844 foi introduzido na Jamaica para tentar controlar ratos — sem sucesso — e, no início do século XX, chegou a Porto Rico para combater um besouro que atacava plantações de cana-de-açúcar, com resultado positivo. Esse aparente sucesso levou, na década de 1930, a novas introduções em toda a região do Pacífico: Austrália, Filipinas, Papua-Nova Guiné, ilhas do Japão, Taiwan, Fiji, Havaí e boa parte do Caribe e da Flórida. Na Austrália, 102 sapos trazidos do Havaí foram liberados em campos de cana em Queensland em agosto de 1935; após um período de estudo sobre seus hábitos alimentares, o governo autorizou novas soltas, e já em março de 1937 mais de 62 mil filhotes haviam sido liberados na natureza.

A espécie nunca controlou de forma eficaz os besouros-da-cana que deveria combater — em parte porque eles vivem no topo da cana-de-açúcar, fora do alcance de um animal que não escala bem. Em compensação, causou impacto profundo na fauna nativa australiana, com queda nas populações de varanídeos, de serpentes como Pseudechis australis e Acanthophis antarcticus, do crocodilo-de-água-doce (Crocodylus johnstoni) e do quol-do-norte, que chegou a desaparecer localmente em partes do Parque Nacional de Kakadu. Registros de observação mostram contagens mensais que sobem de forma constante até um pico em agosto, mas esses números indicam apenas presença registrada, não abundância real nem o limite completo da distribuição da espécie.

Mapa dos registros de ocorrência de Rhinella marina
Onde foi registrado · GBIF
10.558
jan.fev.mar.abr.mai.jun.jul.ago.set.out.nov.dez.
Contagens mensais de ocorrências · GBIF

Comportamento e Modo de Vida

O sapo-cururu é predominantemente noturno e se desloca em pequenos saltos rápidos, mantendo o corpo erguido quando avança. Durante estações frias ou secas, permanece inativo em escavações pouco profundas sob cobertura vegetal, um comportamento de dormência que lhe permite atravessar períodos desfavoráveis. É solitário na maior parte do tempo.

Quando ameaçado, secreta pelas glândulas parótidas e por outras glândulas do dorso um fluido branco e viscoso rico em substâncias cardioativas conhecidas como bufotoxinas. Se ingerido ou em contato com mucosas, esse veneno provoca salivação intensa, tremores, vômitos, respiração superficial e paralisia dos membros posteriores, podendo matar predadores — inclusive cães domésticos.

Entre o ovo e a maturidade, a sobrevivência é baixíssima: apenas cerca de 0,5% dos indivíduos chegam à fase adulta. Isso ocorre porque, ao perderem a toxicidade herdada do ovo e do girino, os jovens ainda não desenvolveram as glândulas parótidas que os protegeriam como adultos — e porque o canibalismo entre girinos é comum. Na população introduzida na Austrália, a seleção natural acelerada produziu girinos até 30 vezes mais propensos a se interessar por devorar os próprios irmãos, e 2,6 vezes mais propensos a realmente fazê-lo, além de um período larval mais curto quando há girinos mais velhos por perto. A espécie tolera temperaturas entre cerca de 10-15 °C e 40-42 °C, podendo ajustar essa tolerância em poucas horas de exposição ao frio, uma plasticidade mais acentuada em populações do extremo norte de sua distribuição introduzida nos Estados Unidos.

Comunicação

A comunicação do sapo-cururu combina sinais acústicos, químicos e táteis. Durante a reprodução, os machos formam coros em corpos de água temporários ou permanentes para atrair as fêmeas, um comportamento coletivo que aumenta as chances de acasalamento em locais com boas condições para a desova.

Além do canto, sinais químicos e o contato físico direto completam o repertório da espécie durante os encontros reprodutivos, embora os detalhes desses sinais sejam menos documentados do que o comportamento vocal em coro.

Caça e Dieta

O sapo-cururu forrageia principalmente à noite, percorrendo o solo de florestas maduras e também estradas, onde aproveita insetos atraídos pela luz e pelo movimento. Sua estratégia não é a de um caçador especializado, mas sim a de um predador oportunista: captura e devora praticamente qualquer presa de tamanho adequado que encontre pelo caminho.

Na Flórida, sua alimentação é dominada por formigas, besouros e tesourinhas. Já foram encontrados em seu estômago itens tão variados quanto libélulas, gafanhotos, percevejos, crustáceos, moluscos gastrópodes, matéria vegetal e até ração de cães e gatos deixada por moradores — prova de sua enorme flexibilidade alimentar e de sua afinidade por ambientes próximos a humanos.

Reprodução e Ciclo de Vida

O sistema de acasalamento do sapo-cururu é poligâmico e promíscuo: os machos se reúnem em águas paradas ou de fluxo lento, temporárias ou permanentes, e formam coros para atrair as fêmeas. Mais de um macho pode fertilizar os ovos de uma mesma fêmea, e os machos mais bem-sucedidos chegam a fertilizar posturas de várias fêmeas na mesma estação.

A reprodução pode ocorrer quase o ano todo, embora, tipicamente, cada fêmea desove uma vez por ano, a partir do segundo ano de vida. Os ovos são depositados em longos cordões de gelatina — que podem se estender por até 20 metros — presos a rochas, detritos ou vegetação emergente na água. Uma única desova pode conter mais de 30.000 ovos, negros e envoltos por uma membrana de cerca de 1,7 a 2,0 mm de diâmetro.

A eclosão ocorre entre 2 e 7 dias após a fertilização, dependendo da temperatura da água. A partir do momento em que os ovos são depositados e fertilizados na água, não há qualquer cuidado parental adicional: o investimento dos pais se limita à produção e à fertilização dos ovos, cabendo às larvas se desenvolverem por conta própria. Apesar da alta mortalidade nas fases iniciais, os indivíduos que sobrevivem podem viver, em média, até quase 25 anos.

População e Papel Ecológico

No seu habitat nativo, o sapo-cururu é presa de predadores adaptados a lidar com sua toxina, como o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), a serpente Leptodeira annulata, enguias da família Anguillidae, várias espécies de peixes killifish e até formigas-bala (Paraponera clavata).

Fora de sua área de origem, diversos animais aprenderam a se alimentar dele com segurança. Gambás do gênero Didelphis parecem imunes aos seus efeitos, e formigas-de-carne atacam e comem os sapos sem sofrer reação ao veneno, já que o comportamento defensivo do sapo — parar e deixar a toxina agir — as favorece. Tartarugas-de-casco-serrilhado também conseguem devorá-lo sem intoxicação. Na Austrália, os ratos-d'água nativos (rakali) aprenderam, em cerca de dois anos, uma técnica quase cirúrgica: selecionam os maiores sapos, os viram de costas, removem a vesícula biliar tóxica e a pele, e comem apenas o coração, outros órgãos e os músculos da coxa. Corvos e aves de rapina como o gavião-assobiador também aprenderam a virar os sapos para consumir só as partes não venenosas.

Essas adaptações mostram como a chegada do sapo-cururu vem remodelando redes alimentares inteiras, forçando predadores nativos e introduzidos a desenvolver, por aprendizado ou seleção natural, novas formas de lidar com uma presa abundante, mas potencialmente letal.

Conservação e Ameaças

A IUCN classifica Rhinella marina como Pouco Preocupante, tanto pela sua abundância em seu território nativo quanto pelo fato de a espécie não enfrentar ameaças significativas à própria sobrevivência. Não recebe proteção especial da lista federal dos Estados Unidos nem da CITES.

O quadro se inverte fora da América do Sul e Central: onde foi introduzido, o sapo-cururu é tratado como uma praga e alvo de esforços de erradicação, sendo considerado uma das 100 espécies exóticas mais amplamente disseminadas do planeta. Nesses locais, o problema não é a conservação do próprio sapo, mas o dano que ele causa à fauna nativa.

Status de conservação

  1. LC
  2. NT
  3. VU
  4. EN
  5. CR

Pouco preocupante

Significado Cultural

Para os olmecas, o sapo-cururu pode ter sido um ser sagrado, associado à ideia de dualidade por sua capacidade de viver tanto na água quanto em terra — uma característica biológica que se prestava bem a simbolizar a fronteira entre dois mundos. Pesquisadores sugerem que seus compostos, como a bufotenina, possam ter sido usados pelos olmecas como enteógeno em rituais.

Povos indígenas como os Embera-Wounaan, na América do Sul, extraíam o veneno do sapo por meio de uma técnica de "ordenha" para produzir veneno de flecha. No Peru, o animal também é consumido como alimento, desde que a pele e as glândulas parótidas sejam cuidadosamente removidas antes do preparo; a carne é considerada saudável e fonte de ácidos graxos ômega-3. No Japão, a bufotenina extraída do sapo foi usada como afrodisíaco e restaurador capilar, e na China seus compostos serviram para reduzir a frequência cardíaca durante cirurgias cardíacas.

No século XX, o sapo-cururu também foi usado em testes de gravidez humana — a urina da paciente era injetada no animal, e o aparecimento de espermatozoides em sua urina indicava gestação — além de servir amplamente como animal de laboratório em escolas e universidades. Sua pele ainda é transformada em couro e em lembranças turísticas, e há tentativas de produzir fertilizante a partir de suas carcaças.

Curiosidades

  1. Apesar de seu nome científico, marina, sugerir ligação com o mar, o sapo-cururu não vive em água salgada — ainda assim, seus girinos já foram registrados sobrevivendo em salinidades de até 27,5‰ na Ilha de Coiba, no Panamá.
  2. É apontado como uma das 100 espécies exóticas mais disseminadas do mundo, o que fez dele um dos animais introduzidos mais estudados cientificamente.
  3. Pesquisas recentes têm investigado se compostos do veneno do sapo-cururu podem ter alguma aplicação no tratamento do câncer de próstata.

Ecologia

Habitat

  • Zona Úmida
  • Floresta
  • Bosque
  • Pradaria

Comportamento

  • Noturno
  • Predador
  • Solitário
  • Hibernante

Dieta

  • Insetívoro

Fotos

20 fotos
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Sapo grande de pele seca e verrugosa, coloração acinzentada a marrom-oliva, com grandes glândulas parótidas atrás dos olhos e íris douradaFoto: via iNaturalist, licensed under CC0 1.0., CC0

FontesGBIFiNaturalistWikidataWikipediaAnimal Diversity WebAnAge