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Abibe-comum

Vanellus vanellus

Quase Ameaçado

O abibe-comum (Vanellus vanellus) é conhecido por sua exibição de voo quase frenética, em que o macho realiza cambalhotas no ar enquanto emite chamados constantes durante a época de reprodução. Pertencente à família Charadriidae, é uma ave comum em toda a Eurosibéria temperada, sendo classificada como Quase Ameaçada pela IUCN.

Além de sua aparência marcante, com a longa crista na cabeça, o abibe-comum chama a atenção por seu comportamento defensivo intenso e por formar grandes bandos durante o inverno em terras abertas, o que faz dele uma das aves limícolas mais visíveis das paisagens agrícolas europeias.

Identificação e Aparência

O traço mais distintivo do abibe-comum é a longa crista na cabeça, presente com mais destaque nos machos. A ave mede entre 28 e 33 centímetros de comprimento, tem envergadura de 67 a 87 centímetros e pesa entre 128 e 330 gramas, com uma média próxima de 218 gramas.

Suas asas são arredondadas e suas pernas são as mais curtas entre todos os abibes. A plumagem é predominantemente preta e branca, mas o dorso apresenta um tom esverdeado quando visto de perto. O macho exibe crista longa e coroa, garganta e peito negros, contrastando fortemente com a face branca.

Fêmeas e aves jovens possuem cristas mais curtas e marcações na cabeça menos definidas, embora o restante da plumagem seja bastante semelhante ao dos machos adultos.

Durante a época de reprodução, a espécie é muito vocal: o macho emite um chamado agudo de contato, descrito como "pee-wit", que deu origem a um de seus nomes alternativos. Durante o voo de exibição, produz uma sequência mais elaborada, algo como "pee-wit, wit wit, eeze wit", além de sons agudos e miados.

Distribuição e Habitat

O abibe-comum é essencialmente uma ave de ambientes agrícolas e de terras cultivadas. As populações reprodutoras preferem pastagens úmidas, prados e vegetação baixa, enquanto as populações não reprodutoras utilizam pastagens abertas, terras úmidas, terras irrigadas e margens de rios para descanso.

Os ninhos são construídos em gramados curtos, com menos de 10 centímetros de altura e poucos ou nenhum tufo de vegetação, em terras agrícolas produtivas — por isso o pastoreio de gado é importante para manter a qualidade do habitat, permitindo a construção dos ninhos. A espécie também depende de acesso fácil a solo úmido com boa quantidade de organismos de superfície e subsuperfície para se alimentar.

Ocorre em regiões de clima temperado e biomas de taiga, em altitudes que variam de 200 a 1.000 metros, com média em torno de 400 metros.

Os registros de observação ao longo do ano sugerem maior presença durante a primavera, com pico entre março e maio, período que coincide com a chegada às áreas de reprodução, seguido de números mais baixos no fim do ano.

Mapa dos registros de ocorrência de Vanellus vanellus
Onde foi registrado · GBIF
667.174
jan.fev.mar.abr.mai.jun.jul.ago.set.out.nov.dez.
Contagens mensais de ocorrências · GBIF

Comportamento e Modo de Vida

O abibe-comum é uma ave limícola precoce, terrícola, diurna e migradora, que se desloca principalmente de dia, muitas vezes em grandes bandos. As populações mais a oeste da Europa, em terras baixas, tendem a ser residentes, enquanto as demais migram para o sul, chegando até o norte da África, norte da Índia, Nepal, Butão e partes da China. Ocasionalmente, é registrada como visitante acidental na América do Norte, especialmente após tempestades.

Durante a época de reprodução, as fêmeas exibem três tipos de comportamento agressivo contra outras fêmeas intrusas, disputando o cuidado parental do macho: uma corrida ameaçadora com pescoço retraído e peito eriçado; ataques no chão com bicadas, golpes e pontapés (o mais comum); e ataques aéreos com mergulhos. Os machos não costumam exibir esses comportamentos.

No inverno, a espécie forma bandos enormes em terras abertas, sobretudo em terras aráveis e em planícies de lama. Alimenta-se frequentemente em bandos mistos com batuíras-douradas e gaivotas-de-cabeça-preta; estas últimas costumam roubar seu alimento, mas também oferecem certa proteção contra predadores. Como as batuíras-douradas, o abibe-comum prefere se alimentar à noite quando há luar.

Tanto o ninho quanto os filhotes são defendidos com ferocidade contra qualquer intruso, incluindo cavalos e bovinos.

Comunicação

O abibe-comum comunica-se principalmente por meio de voos de canto, sequências definidas de tipos de voo combinadas com sequências sonoras específicas. Esses voos de exibição começam pouco antes do amanhecer, são curtos e incompletos no início, mas em cerca de uma hora passam a durar mais, esmaecendo em seguida; o padrão se repete por volta do meio-dia e ao entardecer.

A espécie possui um repertório vocal variado conforme o contexto: chamados territoriais (cantos), chamados de contato e alarme emitidos em coro ao deixar o ninho, chamados de alerta quando um perigo é detectado no solo, chamados de "tudo limpo" para reagrupar os filhotes escondidos, chamados de acasalamento muitas vezes acompanhados de corridas encurvadas ou voos de aproximação do macho, e chamados de distração usados em situações de perigo extremo, geralmente acompanhados de uma encenação de engodo para afastar a ameaça.

Além dos sinais acústicos, a espécie utiliza comunicação visual e tátil, e também percebe estímulos químicos.

Caça e Dieta

O abibe-comum localiza seu alimento sobretudo por meio de uma técnica peculiar: bate uma das pernas repetidamente no solo até que as minhocas subam à superfície, comportamento conhecido como "encantamento de minhocas". É uma ave de alimentação diurna, que prefere restolhos de beterraba açucareira, mas se alimenta também de minhocas, outros invertebrados, pequenos peixes e sementes ou outros materiais vegetais.

As minhocas e as larvas de moscas-do-nabo são fontes de alimento especialmente importantes para os filhotes, pois atendem às necessidades energéticas e são fáceis de encontrar. As pastagens oferecem a maior densidade de minhocas, enquanto as terras aráveis proporcionam as piores oportunidades de forrageio.

A dieta combina, assim, hábitos carnívoros, piscívoros, vermívoros e granívoros, variando conforme o tipo de solo e de uso da terra disponível.

Nidificação e Reprodução

O abibe-comum reproduz-se de abril a julho, formando pares solitários e monogâmicos. As fêmeas atingem a maturidade sexual e começam a se reproduzir com um ano de idade, e os pares costumam ser formados por indivíduos de idade semelhante. As aves retornam aos locais de reprodução já em janeiro, geralmente dentro de um raio de 50 quilômetros da área onde nasceram, embora não necessariamente no mesmo local do ano anterior.

Os terrenos de reprodução incluem terras aráveis, pastagens, charnecas e zonas úmidas. Normalmente é posta apenas uma ninhada de quatro ovos, com um ovo colocado a cada dia e meio, incubados por cerca de 25 dias, variando entre 22 e 28 dias até a eclosão. Como os ovos são frequentemente destruídos por predadores antes de a ninhada estar completa, a fêmea pode pôr os ovos restantes e incubar uma ninhada parcial; ninhadas de reposição completas também são comuns.

Os filhotes nascem precoces e, logo após a eclosão, os pais abandonam o ninho original para criá-los em outro local, onde os jovens já conseguem se alimentar sozinhos. O cuidado parental geralmente é compartilhado por ambos os pais, com as fêmeas dedicando mais tempo à incubação e ao cuidado da prole, enquanto os machos costumam defender o ninho — embora em alguns casos os papéis se invertam. Em certos casos, um dos pais abandona o ninho antes de os filhotes alçarem voo.

População e Papel Ecológico

Pouco se sabe especificamente sobre a importância ecológica do abibe-comum, mas a espécie funciona como presa de diversos predadores e pode influenciar localmente as populações de invertebrados dos quais se alimenta.

Conservação e Ameaças

Classificado como Quase Ameaçado pela IUCN, o abibe-comum sofreu declínios populacionais historicamente ligados ao uso excessivo da terra, à drenagem de zonas úmidas e à coleta de ovos. Atualmente, a principal ameaça é a intensificação das práticas agrícolas em pastagens e zonas úmidas, que reduz o sucesso reprodutivo. Na costa do mar Báltico, os habitats migratórios também são afetados pela poluição por petróleo, pelo crescimento de arbustos decorrente de mudanças no manejo da terra e pelo abandono de áreas rurais.

O cultivo de primavera é conhecido por destruir ninhadas em campos aráveis, e a predação de ninhos pode se tornar um problema sério quando novos mamíferos predadores são introduzidos. No Reino Unido, levantamentos nacionais mostraram declínio entre 1987 e 1998, e desde 2009 a espécie consta na Lista Vermelha britânica; nas terras baixas, a perda de pastagens rústicas e a conversão para lavouras ou pastagens melhoradas contribuíram para o declínio, enquanto nas terras altas o aumento da densidade de pastoreio pode ser o responsável. Na Armênia, também foram documentados declínio populacional e perda de habitats de reprodução, atribuídos à intensificação do uso da terra e à caça. No Oriente Médio, a espécie é ameaçada pela caça excessiva durante a migração de inverno.

Na Inglaterra, o programa Environmental Stewardship, da Natural England, oferece apoio financeiro para restaurar habitats, incluindo a criação de parcelas de pousio com pelo menos 2 hectares em campos aráveis adequados, sem uso de fertilizantes ou pesticidas, para favorecer a nidificação de aves terrícolas.

Quase Ameaçado

Significado Cultural

Os "ovos de abibe" foram uma iguaria cara na Europa vitoriana, mencionados no romance Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh, ambientado na aristocracia britânica entre as décadas de 1920 e 1940. Na Holanda, existe uma tradição cultural-histórica de procurar o primeiro ovo de abibe do ano, especialmente popular na província de Frísia; a coleta dos ovos é hoje proibida pela União Europeia, embora a procura seja permitida entre 1º de março e 9 de abril.

A espécie também é caçada comercial e recreativamente como fonte de alimento em países como Irã, França, Itália, Grécia e Espanha.

Em 1990, o abibe-comum foi declarado a ave nacional da República da Irlanda por um comitê da Irish Wildlife Conservancy. Em irlandês é chamado de pilibín, "pequeno Filipe", numa suposta referência a Filipe II da Espanha, rei da Irlanda entre 1554 e 1558, que costumava usar uma pena no chapéu.

Curiosidades

  1. O nome científico Vanellus deriva do latim vanellus, diminutivo de vannus ("leque para joeirar grãos"), numa referência ao som produzido por suas asas em voo.
  2. A espécie foi descrita formalmente pelo naturalista sueco Carl Lineu em 1758, na décima edição de sua obra Systema Naturae, sob o nome binomial Tringa vanellus.
  3. Em 2008, o primeiro ovo de abibe do ano na Holanda foi encontrado em 3 de março, em Eemnes; em 2009, o achado ocorreu em 8 de março, em Krabbendijke — e, ao longo do último século, a data do primeiro ovo tem se antecipado cada vez mais, atribuída ao uso de fertilizantes e às mudanças climáticas.

Fotos

Fotografias de via iNaturalist, licensed under CC0 1.0., by Clare Edwards via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Albert Rainbow via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by jhatfield via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by andygpos via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by S. Menéndez via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Дмитрий Кошелев via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Mourad Harzallah via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Rich Agar via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0. e by Jess Hughes via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., com os créditos em cada foto.

Ecologia e classificação

Comportamento

  • Predador
  • Territorial
  • Diurno
  • Migratório

Dieta

  • Onívora

Classificação

Filo
Chordata
Classe
Aves
Ordem
Charadriiformes
Família
Charadriidae
Gênero
Vanellus
Espécie
Vanellus vanellus

Fontes

  1. GBIF Species names and classification
  2. iNaturalist Photos
  3. Wikidata Common names and conservation status
  4. Wikipedia Summary extract
  5. Animal Diversity Web Animal habitat, behavior and diet
  6. AnAge Longevity