O ganso-bravo é a espécie-tipo do género Anser e é antepassado da maioria das raças de ganso doméstico. Trata-se de uma ave aquática de grande porte, com 74 a 91 centímetros de comprimento, que pode viver até .
A espécie tem distribuição paleártica, estendendo-se pela Europa e pela Ásia numa área de cerca de . As aves do norte da sua área costumam migrar para sul no inverno, mas muitas populações são sedentárias, mesmo no norte. A IUCN classifica a espécie como Pouco Preocupante.
A sua história com as pessoas é longa e pouco comum entre as aves. Conhecer o ganso-bravo ajuda a perceber como uma ave selvagem deu origem a animais de criação que acompanham o ser humano há milhares de anos.
Identificação e Aparência
O sinal mais útil para reconhecer o ganso-bravo é a combinação de plumagem cinzenta e castanha com bico alaranjado ou cor-de-rosa e pernas cor-de-rosa. Em voo, destacam-se a cobertura alar cinzenta clara e o uropígio igualmente claro, que contrastam com as penas de voo mais escuras.
É a maior e a mais corpulenta das gansos cinzentos do género Anser, mas tem uma silhueta mais leve e ágil do que o seu parente doméstico. O corpo é robusto, com pescoço grosso e comprido e cabeça e bico grandes. Mede 74 a 91 centímetros de comprimento, tem envergadura de 147 a 180 centímetros e pesa, em média, cerca de . Os machos são em geral maiores do que as fêmeas, e a diferença é mais marcada na subespécie oriental A. a. rubirostris.
A cabeça é mais escura do que o peito e a barriga, que são mais claros e apresentam manchas negras variáveis. Um traço distinto dos adultos é o padrão de pregas em forma de sanfona nas penas do pescoço. Os juvenis não têm as manchas negras no peito e na barriga e têm pernas cinzentas, e não cor-de-rosa.
Distribuição e Habitat
O ganso-bravo ocorre em zonas húmidas e abertas da Europa e da Ásia. Na época de reprodução, vive em pântanos e turfeiras de planície com muita vegetação, em lagos e em pequenas ilhas ao largo da costa. Prefere coberto denso de canas, juncos, urze, arbustos e salgueiros.
Fora da época de reprodução, frequenta pântanos de água doce e salgada, estuários, campos agrícolas, pastagens e campos de batata. No inverno, alimenta-se em cereais de inverno, arroz e feijão, e desloca-se à noite para bancos de areia e lodaçais costeiros ou para lagos isolados.
As populações do norte da Europa e da Ásia migravam tradicionalmente para o sul da Europa e para o Norte de África. Desde a década de 1950, o aumento das temperaturas de inverno levou muitas aves a reproduzir-se mais a norte e no centro da Europa, ou a ficar todo o ano, o que reduz as distâncias de migração.
No Reino Unido, a espécie recuou como ave nidificante para o norte da Escócia e para as Hébridas Exteriores. Durante o século XX, populações selvagens e asselvajadas instalaram-se noutras regiões, e hoje recolonizaram grande parte de Inglaterra. Fora da Europa, existem populações asselvajadas na Austrália e na Nova Zelândia, originadas por gansos domésticos fugidos.

Comportamento e Modo de Vida
O ganso-bravo é sociável e forma grupos de tamanhos variados, desde pequenas famílias até bandos com milhares de aves. Nas longas deslocações, voa em formação em V. Em terra, corre com rapidez e afasta-se sem dificuldade dos predadores.
As aves formam casais monogâmicos de longa duração. A maioria dos casais é provavelmente para toda a vida, embora cerca de 5 a 8% se separem e formem novo par. Os machos mais fortes e corajosos ocupam frequentemente posições dominantes no bando.
Na época de reprodução, as famílias agrupam-se para defender as crias em conjunto, afastando predadores por ataque ou perseguição. Depois de expulsar um predador, o macho regressa à fêmea e emite um canto de vitória.
Fora da época de reprodução, os bandos alimentam-se em conjunto, e a vigilância de alguns indivíduos permite que os outros comam sem estarem constantemente alerta. Durante a muda das penas de voo, as aves juvenis deslocam-se para locais tradicionais e seguros, porque ficam vulneráveis enquanto não voam.
Comunicação
O ganso-bravo comunica sobretudo por sons. O grasnido típico, parecido com o do ganso doméstico, é emitido em terra ou em voo, e as variações sutis servem para diferentes situações. As aves parecem reconhecer outros gansos conhecidos pela voz.
O som de um bando lembra o uivo de cães de caça. Os gansinhos piam ou assobiam levemente, e os adultos silvam quando se sentem ameaçados ou irritados.
O macho que expulsou um predador emite um canto de vitória, um ronco sonoro seguido de um grasnar grave, com o pescoço estendido para a frente. A fêmea e até as crias ainda sem penas de voo respondem da mesma forma. A espécie também usa sinais visuais e táteis, além de sinais químicos.
Gravações
alarm call · Czech Republic · Petr Holecek · Public domain
· Sweden · Grégoire Chauvot · Public domain
Dieta e Nutrição
O ganso-bravo é sobretudo herbívoro e alimenta-se principalmente de gramíneas. Prefere erva curta e em crescimento, por isso é frequente vê-lo a pastar em pastagens com ovelhas ou vacas. Como a erva tem pouco valor nutritivo, passa grande parte do tempo a alimentar-se, e o alimento atravessa rapidamente o intestino.
No inverno, come folhas e gramíneas, mas também apanha grão nas restolhadas e come culturas em crescimento, sobretudo à noite. Entre as culturas, aproveita aveia, trigo, cevada, lentilhas, ervilhas e tubérculos. A batata é hoje um alimento importante, e a espécie procura tubérculos em campos lavrados.
Na costa, consome também plantas aquáticas, como as lentilhas-de-água e as ervas dos sapais, e pode comer frutos e bolotas. Além de vegetais, come pequenos animais aquáticos, como peixes, anfíbios, crustáceos, moluscos e insetos.
Nidificação e Reprodução
A época de reprodução começa no início de maio na Islândia e no fim de abril na Escócia, e na Europa central começa um pouco mais cedo. Os ninhos são construídos no chão, entre urzes, juncos, arbustos ou canas, e também em sítios elevados, em zonas pantanosas e em pequenas ilhas, longe de predadores. O ninho é feito de canas, ramos de urze, gramíneas e musgo, misturados com penas e penugem.
A postura tem em geral de quatro a seis ovos, mas pode ir de três a doze. Os ovos são de cor creme-branco, mais tarde manchados, e medem cerca de 85 por 58 milímetros. São postos quase todos em dias seguidos e a incubação começa depois do último. Só a fêmea incuba, durante 27 a 28 dias, enquanto o macho vigia por perto.
As crias são precoces e saem do ninho pouco depois de nascer, mas os progenitores cuidam delas em conjunto. Aprendem depressa a bicar o alimento e ficam emplumadas entre as oito e as nove semanas. Por essa altura, os pais recuperam a capacidade de voar, depois de terem mudado as penas de voo e da cauda cerca de um mês antes.
A maturidade sexual surge entre os 2 e os 3 anos, e a maioria das aves reproduz-se pela primeira vez aos 3 anos.
População e Papel Ecológico
A população europeia do ganso-bravo já foi muito abundante na Europa Ocidental, mas a drenagem dos pântanos reduziu-a fortemente. Atualmente, a espécie aumentou e forma bandos de dezenas de milhares de aves.
Em algumas regiões, o aumento tornou-se um problema para a agricultura. Na Noruega, a população terá aumentado de três a cinco vezes entre 1995 e 2015, e os danos causados pelo pastoreio em terrenos agrícolas aumentaram muito. Nas Orkney, o número de casais reprodutores passou de 300 para 10.000 em 2009 e para 64.000 em 2019.
No ecossistema, a espécie é presa de várias aves de rapina, de mamíferos carnívoros e de aves como a cegonha-branca e o corvo-comum, e consome grandes quantidades de vegetação de zonas húmidas e de culturas.
Domesticação e História Humana
O ganso-bravo foi domesticado há milhares de anos e é antepassado da maioria das raças de ganso doméstico. A domesticação pelo menos já existia em 1360 a.C.
As pessoas criaram a ave sobretudo pela carne, que é muito saborosa. Também se aproveitaram as penas macias, a penugem, que são usadas em almofadas, colchões leves, roupas de exterior, sacos-cama e materiais isolantes.
As raças atuais diferem do ganso-bravo em tamanho e em comportamento, e algumas populações asselvajadas, como as da Austrália e da Nova Zelândia, descendem de gansos domésticos fugidos.
Conservação e Ameaças
A IUCN classifica o ganso-bravo como Pouco Preocupante, e a espécie está listada como sem estatuto especial nos Estados Unidos e na CITES. Nos séculos passados, a drenagem dos pântanos causou uma forte redução das populações na Europa Ocidental.
Hoje, a população cresceu a ponto de formar bandos de dezenas de milhares de aves. O principal conflito atual é com a agricultura, sobretudo na Noruega e nas Orkney, onde os danos nas culturas levaram a caças mais longas.
Na caça, as aves são sensíveis às alterações dos seus habitats húmidos, como a drenagem e a perda de zonas de alimentação. A proteção de pântanos e de campos agrícolas de inverno beneficia a espécie.
Fotos
Fotografias de via iNaturalist, licensed under CC0 1.0., by s_schizik via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Bernd De Bosscher via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0. e by Coralie via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., com os créditos em cada foto.
Ecologia e classificação
Classificação
- Filo
- Chordata
- Classe
- Aves
- Ordem
- Anseriformes
- Família
- Anatidae
- Gênero
- Anser
- Espécie
- Anser anser
Fontes
- GBIF Species names and classification
- iNaturalist Photos
- Wikidata Common names and conservation status
- Wikipedia Summary extract
- Xeno-canto Audio recordings
- Animal Diversity Web Animal habitat, behavior and diet
- AnAge Longevity
- AVONET Bird mass, habitat, migration, diet and range size
- GloBI What it eats, what eats it, parasites and pollinators
- trophiCH
- Wardeh et al. 2015 (EID2)
- HWML Parasite Collection
- TETRA-EU



