O Salvelinus alpinus é o peixe de água doce que vive mais ao norte do planeta.
Trata-se de um peixe de águas frias da família Salmonidae, nativo de lagos de altitude e de águas costeiras árticas e subárticas do Holártico. Algumas populações são anádromas, ou seja, passam parte da vida no mar e voltam aos rios para se reproduzir. A espécie pode viver até .
Está classificada como Pouco Preocupante pela IUCN, o que indica baixo risco de extinção global. Vale a pena conhecê-la porque reúne traços de salmões e de trutas, e porque sua aparência muda bastante entre populações.
Identificação e Aparência
O traço mais útil para reconhecer a espécie é o dorso escuro, que contrasta com a parte ventral. O ventre varia entre vermelho, amarelo e branco. A cor geral muda com a estação do ano e com as condições do lago onde o peixe vive, e também difere entre populações.
A espécie apresenta dois tamanhos bem distintos, os anões e os gigantes. Os anões pesam entre 0,2 e 2,3 kg, enquanto os gigantes pesam entre 2,3 e 4,5 kg e medem em média cerca de 40 cm. Os exemplares de tamanho comercial costumam pesar entre 1 e 2,5 kg.
O Salvelinus alpinus lembra tanto o salmão-do-atlântico quanto a truta de lago, e combina características dos dois. Machos e fêmeas têm o mesmo tamanho. A cor da carne pode ir do vermelho-vivo ao rosa-pálido.
Distribuição e Habitat
A espécie tem distribuição quase circumpolar. Ocorre no Ártico canadense, na Groenlândia, na Islândia, na Escandinávia, na Sibéria e no Alasca, além de lagos de altitude e de costas árticas e subárticas.
Na região, a espécie vive como residente em lagos, como anádroma ou como semi-anádroma. Acima de 65 graus de latitude norte, os exemplares são geralmente anádromos. Nos primeiros um a nove anos de vida, vivem em água doce. No verão, os adultos migram para o mar, onde ocupam áreas costeiras e de maré, e depois voltam a lagos congelados passando por estuários e águas salobras.
A maior parte dos exemplares fica entre 0 e 1 metro de profundidade, e alguns chegam a 3 metros. Em lagos, a espécie pode chegar a 16 metros de profundidade. No Lago Hazen, na ilha de Ellesmere, no Ártico canadense, é o único peixe presente. Na Sibéria, é conhecida como golets e foi introduzida em alguns lagos, onde por vezes ameaça espécies endêmicas menos resistentes, como o char de boca pequena e o char de nadadeiras longas, no Lago Elgygytgyn.
O Lago Pingualuit, na Península de Ungava, em Quebec, ocupa uma cratera de impacto formada há cerca de 1,4 milhão de anos. Acredita-se que, desde a última glaciação, mudanças no nível da água tenham ligado o lago a águas de degelo e a rios vizinhos, permitindo que o peixe subisse os rios até o lago. Nas Ilhas Britânicas e na Irlanda, a espécie é uma das mais raras e fica restrita a lagos profundos, frios e de origem glacial, onde corre risco de acidificação. Nos países nórdicos é muito mais comum e é pescada em grande escala. Entre julho e setembro, a presença da espécie nas áreas onde é observada se concentra mais.

Comportamento e Modo de Vida
A espécie é uma nadadora ativa e migratória. Durante a migração, costuma se deslocar em grupos. Os exemplares anádromos vão ao mar a cada ano, entre meados de junho e meados de julho, e depois retornam à água doce para desovar e passar o inverno.
A atividade alimentar acontece de dia e à noite. Como outros salmonídeos, a espécie é considerada predadora visual, mas em estudos de lagos ela depende mais do paladar e do tato do que da visão para encontrar alimento.
Na época da desova, os machos vivem sozinhos e defendem território, e os maiores dominam os demais. O tamanho do território aumenta com o corpo e diminui quando há mais alimento. Os territórios se sobrepõem e nem sempre são defendidos com exclusividade.
Comunicação
A linha lateral permite detectar movimentos e vibrações ao redor. O sentido químico tem papel central na reprodução: durante a desova, os machos liberam feromônios que atraem as fêmeas prontas para ovular.
Em lagos perto de Reykjavík, na Islândia, os exemplares do Ellidavatn dependem mais do paladar e do tato do que da visão. Os peixes também reconhecem o cheiro de irmãos e preferem água com esse odor a água marcada por peixes que não são seus parentes.
Os juvenis têm sensibilidade a odores de predadores. Eles respondem a pistas químicas de diferentes peixes predadores e também à dieta desses animais.
Dieta e Nutrição
A espécie é em geral oportunista e muda de dieta conforme o local onde vive. No mar, os principais alimentos são o copépode Calanus finmarchicus e o krill. Nos lagos, predominam insetos e zoobentos.
No norte da Labrador, peixes como a capelina (Mallotus villosus) e o cabeçudo (Triglops murrayi) estão entre os principais alimentos.
Ela também come insetos, ovos de peixes, moluscos, zooplâncton, anfípodes e outros crustáceos aquáticos. Exemplares gigantes podem comer os próprios jovens.
Reprodução e Ciclo de Vida
Durante uma temporada de acasalamento, os machos podem se acasalar com mais de uma fêmea, enquanto as fêmeas são monogâmicas. Os machos dominantes defendem territórios e atraem e guardam as fêmeas. A fêmea escolhe um local dentro do território do macho e cava o ninho, chamado redd, no cascalho. O macho rodeia a fêmea, se aproxima e treme ao seu lado. Ovos e esperma são liberados juntos na área do ninho, e a fecundação ocorre fora do corpo. Os ovos fecundados ficam depositados no cascalho.
A desova ocorre sobretudo no outono, entre setembro e dezembro. Algumas populações de lagos desovam na primavera, no verão ou no inverno. A maturidade sexual chega entre 4 e 10 anos, geralmente quando o peixe mede cerca de 50 a 60 cm. Alguns só amadurecem aos 15 anos. Os machos costumam amadurecer por volta dos 9,7 anos, e as fêmeas, por volta dos 10,3 anos.
As fêmeas põem entre 2.500 e 8.500 ovos, e as anádromas costumam depositar de 3.000 a 5.000. O tempo até a eclosão fica geralmente entre dois e três meses, podendo chegar a cinco. Os recém-nascidos pesam entre 0,04 e 0,07 g e são independentes desde a eclosão. Os alevinos emergem do cascalho na primavera e permanecem no rio por cinco a sete meses, até medirem cerca de 15 a 20 cm.
Os pais não cuidam dos filhotes depois da desova. A fêmea constrói o ninho e o macho guarda o território apenas enquanto a desova durar. Ao contrário dos salmões-do-pacífico, a espécie não morre após a desova e pode se reproduzir várias vezes ao longo da vida, que pode chegar a .
População e Papel Ecológico
A espécie é presa importante do truta-feroz (Salmo ferox), um predador de topo. Por isso, o peixe-ártico é peça-chave na cadeia alimentar de muitos lagos onde vive. Também abriga diversos parasitas, como protozoários, trematódeos, tênias, nematódeos, vermes-de-cabeça-espinhosa, sanguessugas, crustáceos e um fungo que aparece às vezes na pele.
Além do truta-feroz, seus predadores incluem a lontra-marinha, o urso-polar (Ursus maritimus), os seres humanos e outros peixes. Os anões costumam ser consumidos por exemplares gigantes. A cor do peixe também ajuda na defesa: fica mais escura na água doce e mais clara no mar, o que o torna menos visível para predadores.
Conservação e Ameaças
A espécie está classificada como Pouco Preocupante pela IUCN. Nos Estados Unidos, não tem status especial na lista federal nem nas listas da CITES e do estado de Michigan.
A maior ameaça é a ação humana. A acidificação dos cursos d'água também é grave: no sul da Escócia, várias populações desapareceram por causa dela. Na Irlanda, muitas populações sumiram devido à acidificação dos lagos e à piora da qualidade da água, causada por poluição doméstica e agrícola.
Uma suspeita é a falta de variação genética em algumas populações. No lago Siamaa, no sudeste da Finlândia, a população depende da aquicultura para sobreviver. Acredita-se que a baixa diversidade genética cause alta mortalidade de ovos e alevinos e maior suscetibilidade a doenças.
Entre as medidas propostas estão o controle da acidificação no sul da Escócia, o desenvolvimento sustentável, a transferência de juvenis, o controle da entrada de nutrientes nos lagos e a prevenção da introdução de peixes predadores. Em alguns locais, como o lago Siamaa, os estoques são repostos.
Significado Cultural
Para as pessoas, a espécie é um alimento muito valorizado e considerado iguaria de alto preço. O preço varia conforme o volume de oferta: quanto menor a oferta, maior o valor.
Em 2018, o preço médio foi de cerca de US$ 9,90 por quilo de peixe limpo. Em outros momentos, o preço dos filés chegou a US$ 24,18 por quilo.
A espécie também é alvo de pesca esportiva e de coleta de exemplares para pesquisa e educação.
Curiosidades
- Na época da reprodução, os machos desenvolvem um maxilar em gancho, chamado kype, e adquirem uma cor vermelha intensa, enquanto as fêmeas permanecem prateadas.
Fotos
Fotografias de via iNaturalist, licensed under CC0 1.0., by danikraemer via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Bailey Duncan via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Johnathan Campbell via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Dennis Lausch via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by EmaD via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Matt Bowser via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Jacek Pietruszewski via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Alison Copeland via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Nefol via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Heather Mazzaccaro via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Piotr Lukasik via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., by Valentin Moser via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0. e by Vladislav Isaev via iNaturalist, licensed under CC BY 4.0., com os créditos em cada foto.
Ecologia e classificação
Dieta
- Carnívoro
Comportamento
- Territorial
- Social
- Diurno
- Migratório
Classificação
- Filo
- Chordata
- Ordem
- Salmoniformes
- Família
- Salmonidae
- Gênero
- Salvelinus
- Espécie
- Salvelinus alpinus
Fontes
- GBIF Species names and classification
- iNaturalist Photos
- Wikidata Common names and conservation status
- Wikipedia Summary extract
- Animal Diversity Web Animal habitat, behavior and diet
- AnAge Longevity



