Com flores que podem atingir 9 centímetros de largura, Cypripedium calceolus é a orquídea de maior flor entre todas as espécies nativas da Europa.
Pertencente à família Orchidaceae, é a espécie-tipo do género Cypripedium e ocorre naturalmente por toda a Europa e Ásia. Globalmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza classifica-a como "Pouco Preocupante", ainda que essa avaliação esconda declínios acentuados em muitas regiões.
A espécie vale a pena conhecer não só pela sua aparência incomum, mas também pela dependência estrita de fungos micorrízicos específicos e por uma história de quase desaparecimento e recuperação em países como o Reino Unido e a Suíça.
Identificação e Aparência
O traço mais distintivo de Cypripedium calceolus é o seu labelo amarelo em forma de sapatinho, salpicado de pontos vermelhos no interior, contrastando com pétalas longas e frequentemente retorcidas que variam do castanho-avermelhado ao quase negro, sendo raramente verdes.
A planta pode atingir até 60 centímetros de altura, com flores que chegam a 9 centímetros de largura. Cada rebento produz até quatro folhas ovais, que podem medir até 18 centímetros de comprimento por 9 centímetros de largura, exibindo a nervuração paralela típica das orquídeas. O número de flores por planta é geralmente reduzido, normalmente uma ou duas.
Antes da floração, a espécie distingue-se pelo tamanho e largura das suas folhas ovais. É frequentemente confundida, no estado vegetativo, com Allium ursinum, Convallaria majalis ou várias espécies de Epipactis, e sobretudo com Veratrum album, com a qual partilha habitat. A diferença chave está na disposição das folhas: C. calceolus apresenta filotaxia dística, em duas fileiras alternadas, com bases foliares sulcadas que envolvem o caule, enquanto V. album tem filotaxia espiralada em três fileiras, com o caule claramente visível entre as folhas.
É uma planta perene de vida longa, que se propaga por rizomas horizontais subterrâneos, e assemelha-se de forma próxima a outras espécies do género Cypripedium nativas da América do Norte.
Distribuição e Habitat
Cypripedium calceolus tem uma distribuição muito ampla, estendendo-se da Espanha, através de praticamente toda a Europa e da Rússia europeia, até à Sibéria e ao Extremo Oriente russo, alcançando o nordeste da China (Heilongjiang, Jilin, Liaoning, Nei Mongol), a Mongólia, a Coreia e a ilha de Rebun, no Japão.
A espécie ocupa preferencialmente bosques abertos sobre solos calcários húmidos, crescendo também em húmus decomposto de florestas calcárias semisombreadas na Europa continental. No Reino Unido, ocorre em pastagens calcárias e em matagais e bosques abertos sujeitos a um nível intermédio de pastoreio. O seu limite altitudinal superior situa-se nos 2.100 metros.
Os registos de observações mensais mostram um padrão sazonal muito marcado, com um pico acentuado em junho (mais de 33.000 registos) e valores já elevados em maio, seguidos de forte queda a partir de julho. Este padrão reflete, com toda a probabilidade, o período de floração, quando a planta se torna muito mais visível e é registada com maior frequência — não uma medida real de abundância ou do tamanho da população.
A população da espécie sofreu um declínio significativo em grande parte da Europa, o que levou à sua proteção legal em vários países.

Ecologia e Relações
Cypripedium calceolus depende de relações ecológicas específicas para sobreviver, associando-se com frequência a bosques de aveleiras.
A polinização é realizada por um conjunto diversificado de insetos, incluindo pelo menos sete espécies de abelhas mineiras dos géneros Andrena e Colletes, além de pelo menos duas espécies de abelhas-do-sulco do género Lasioglossum. As plantas são, no entanto, muito vulneráveis à herbivoria por lesmas e caracóis, que podem danificar gravemente rebentos e folhas.
No subsolo, a espécie associa-se principalmente a fungos micorrízicos do género Tulasnellaceae, uma relação essencial para o acesso da orquídea a nutrientes do solo. Outros parceiros fúngicos sugeridos incluem géneros como Alternaria, Ceratorhiza, Chaetomium, Cylindrocarpon, Epicoccum, Epulorhiza, Moniliopsis, Mycelium radicis atrovirens, Phoma e Rhizoctonia.
Usos e Relação com as Pessoas
Desde o século XVIII, Cypripedium calceolus é apreciada pela sua morfologia floral incomum, sendo cultivada em jardins de sombra e em ambientes naturalizados por causa da sua aparência exótica, prosperando em solos calcários bem drenados sob dosséis arbóreos.
A espécie tem também um lugar significativo na cultura popular: no romance russo In the Forests, de Pavel Ivanovich Melnikov, uma znakharka (mulher sábia tradicional russa) refere-se à planta como "cabeça de Adão", "erva de Adão" ou "chinelos do cuco", afirmando que serviria para curar todo o tipo de males e para afastar espíritos malignos.
A planta figura em selos postais de numerosos países, incluindo Áustria, República Checa, Dinamarca, França, Granadinas, Hungria, Itália, Letónia, Madagáscar, Moldova, Moçambique, Noruega, Roménia, Rússia, Eslovénia, Suécia, Uganda, Ucrânia e Reino Unido, e aparece ainda no brasão de armas do município norueguês de Snåsa.
Conservação e Ameaças
Apesar do estatuto global de "Pouco Preocupante" atribuído pela IUCN, Cypripedium calceolus tornou-se rara em muitos países, onde recebe proteção legal — é o caso do Reino Unido e da Dinamarca. Em contraste, mantém-se comum na Polónia e na Áustria, mas foi considerada extinta na Grécia.
O caso britânico ilustra bem a gravidade do declínio: outrora razoavelmente comum no norte da Inglaterra, sobretudo nas zonas calcárias dos Yorkshire Dales, a espécie foi reduzida, no final do século XX, a uma única planta num único local. Embora a extração por jardineiros e botânicos seja frequentemente apontada como principal causa, o encolhimento do seu habitat — devido à desflorestação das paisagens calcárias e ao pastoreio ovino subsequente — foi decisivo para o quase desaparecimento da espécie no território.
Desde 1975, a espécie é legalmente protegida no Reino Unido pela Conservation of Wild Creatures and Wild Plants Act. Um programa de reintrodução conseguiu elevar a população para centenas de plantas até 2003, e em junho de 2024 foi encontrada a primeira planta germinada espontaneamente na natureza desde 1930. Na Suíça, o viveirista neerlandês Anthura, em colaboração com a Fundação Suíça de Orquídeas, utilizou semente da população suíça para produzir três mil plantas viáveis, reintroduzidas em vários locais mantidos em segredo e monitorizados regularmente.
Status de conservação
- LC
- NT
- VU
- EN
- CR
Pouco preocupante
Curiosidades
- As flores de Cypripedium calceolus podem atingir 9 centímetros de largura, tornando-a a orquídea de maior flor entre as espécies selvagens da Europa.
- É a espécie-tipo do género Cypripedium, que reúne cerca de 50 espécies conhecidas como orquídeas-sapatinho, numa referência ao labelo inchado em forma de sapato.
- O número de cromossomas da espécie tem sido registado tanto como 2n=20 como 2n=22, consoante as populações estudadas.
- A planta já apareceu em selos postais de quase vinte países, de Madagáscar à Rússia.
- Figura no brasão de armas do município de Snåsa, na Noruega.
- No folclore russo, era conhecida como "cabeça de Adão" e considerada capaz de curar todo o tipo de doenças e afastar espíritos malignos.
- No Reino Unido, a população selvagem chegou a reduzir-se a uma única planta, mas em junho de 2024 foi encontrado o primeiro exemplar germinado de forma espontânea desde 1930.
Ecologia
Hábito de crescimento
- Erva


