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Tartaruga-comum

Caretta caretta

VUVulnerável
Uma tartaruga-verde adulta nadando em águas costeiras claras, com carapaça achatada em tom oliva a marrom e nadadeiras dianteiras em forma de remo.Foto: Ella McCausland, CC BY

Medidas

Peso
156,5–156,5 kg
Expectativa de vida
≤ 77 anos
Classificação
Filo
Chordata
Classe
Testudines
Família
Cheloniidae
Gênero
Caretta
Espécie
Caretta caretta

Em 1996, uma fêmea batizada de Adelita percorreu 14.500 km através do Oceano Pacífico, da costa do México até o Japão, equipada com um rastreador de satélite: foi o primeiro animal de qualquer espécie já rastreado ao longo de uma bacia oceânica inteira. Esse feito resume bem a vida da Caretta caretta, a tartaruga-comum, uma réptil marinho da família Cheloniidae que passa a maior parte da existência em alto-mar.

Distribuída pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, além do mar Mediterrâneo, a tartaruga-comum é classificada como Vulnerável pela IUCN. É a espécie de tartaruga marinha com a maior amplitude geográfica de nidificação do planeta.

Poucos animais combinam tanto uma anatomia tão especializada — cabeça enorme e mandíbulas capazes de triturar conchas — com uma biologia migratória tão complexa, que liga praias tropicais a correntes oceânicas distantes ao longo de décadas de vida.

Identificação e Aparência

O traço mais útil para reconhecer a Caretta caretta é sua cabeça grande e robusta, proporcionalmente maior que a de qualquer outra tartaruga marinha, sustentada por músculos mandibulares volumosos que lhe dão um aspecto bulboso atrás dos olhos — origem do nome popular em inglês, "loggerhead" (cabeça de tora).

Os adultos pesam entre 80 e 200 kg, com média em torno de 135 kg, embora o maior espécime registrado tenha atingido 545 kg. O comprimento do casco (carapaça) varia de 70 a 95 cm, com média de cerca de 90 cm, e o maior indivíduo já medido chegou a 213 cm. A carapaça e a cabeça variam do amarelo-alaranjado ao castanho-avermelhado, enquanto o plastrão (parte inferior) é amarelo-claro; o pescoço e os flancos são castanhos por cima e amarelos por baixo e nas laterais. A carapaça é dividida em placas ou escudos: geralmente 11 a 12 pares de escudos marginais bordejam a borda, cinco escudos vertebrais correm pela linha central e cinco pares de escudos costais os flanqueiam.

A diferenciação entre sexos só é visível em adultos: os machos têm cauda e garras mais longas, plastrão mais curto e carapaça mais larga e menos abaulada que as fêmeas, além de cabeças tipicamente mais largas. Filhotes e subadultos não podem ser sexados por características externas.

Uma curiosidade anatômica é a presença de glândulas lacrimais atrás dos olhos, que eliminam o excesso de sal absorvido da água do mar; em terra, isso dá a falsa impressão de que a fêmea está chorando enquanto nidifica. O crânio também se distingue de outras tartarugas marinhas porque os ossos maxilares se encontram na linha média do palato.

Distribuição e Habitat

A tartaruga-comum tem distribuição cosmopolita, ocorrendo nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico e no mar Mediterrâneo, e nidifica ao longo da maior amplitude geográfica entre todas as tartarugas marinhas. No Atlântico, a maior concentração está na costa sudeste da América do Norte e no golfo do México; a Flórida é o principal ponto de nidificação, com mais de 67.000 ninhos por ano, enquanto as ilhas de Cabo Verde formam o único sítio relevante no lado oriental do Atlântico.

No oceano Índico, a espécie se alimenta ao longo das costas da África e da península Arábica; Omã abriga cerca de 15.000 ninhos, a segunda maior população nidificante do mundo, e a Austrália Ocidental registra de 1.000 a 2.000 ninhos anuais. No Pacífico, as áreas de nidificação mais importantes são o leste da Austrália e o Japão — a ilha de Yakushima concentra 40% de toda a população próxima —, com evidências genéticas indicando que 95% da população que vive ao longo das Américas nasceu nas praias japonesas, transportada pelas correntes ao longo de uma das rotas migratórias mais longas entre os animais marinhos.

O mar Mediterrâneo funciona como viveiro para juvenis, quase metade dos quais migrou originalmente do Atlântico, além de ser área de alimentação de adultos na primavera e no verão, sobretudo no Adriático nordeste, próximo ao delta do Pó. A Grécia é o principal ponto de nidificação mediterrâneo, com mais de 3.000 ninhos por ano, concentrados em Zakynthos e na baía de Kyparissia.

O habitat muda ao longo da vida: filhotes e juvenis jovens vivem de forma pelágica, associados a bancos flutuantes de sargaço em correntes quentes; juvenis mais velhos e adultos preferem águas costeiras com fundo rochoso ou lodoso, recifes de coral, baías, lagunas salobras e desembocaduras de rios, em profundidades geralmente entre 0 e 61 metros. Registros de observações mensais mostram um pico entre maio e agosto, sugerindo maior presença sazonal nesse período — dado que reflete apenas a frequência de avistamentos, não o tamanho real da população.

Mapa dos registros de ocorrência de Caretta caretta
Onde foi registrado · GBIF
25.138
jan.fev.mar.abr.mai.jun.jul.ago.set.out.nov.dez.
Contagens mensais de ocorrências · GBIF

Comportamento e Modo de Vida

A tartaruga-comum é predominantemente diurna e passa até 85% do dia submersa, alternando entre nadar e repousar no fundo com as nadadeiras dianteiras estendidas. Mergulhos típicos duram de 15 a 30 minutos, mas a espécie pode permanecer submersa por mais de dez horas seguidas — mais tempo do que qualquer outro vertebrado marinho que respira ar —, e os machos costumam ser nadadores e mergulhadores mais ativos que as fêmeas.

O comportamento migratório é uma marca da espécie: alguns indivíduos já foram registrados percorrendo até 4.828 km. Adultos e juvenis em águas temperadas migram em direção ao equador no inverno para evitar o chamado "cold stunning", um estado de letargia que surge em águas abaixo de 10 °C e pode ser fatal sob 5 °C; juvenis mais jovens resistem um pouco melhor, só entorpecendo abaixo de 9 °C. As tartarugas exibem forte capacidade de retorno ao local de origem (homing): juvenis voltam às áreas de alimentação próximas ao ninho natal, e adultos retornam ano após ano à mesma praia onde nasceram.

Embora seja descrita como solitária, a espécie apresenta agressão entre fêmeas — algo raro entre vertebrados marinhos —, geralmente disputando acesso a bons locais de alimentação. O confronto segue etapas ritualizadas: contato inicial, círculos de cabeça e cauda, confronto direto com mordidas nas mandíbulas e, por fim, separação ou perseguição; a cauda erguida sinaliza disposição para escalar o conflito, e a cauda curvada, disposição para recuar.

A nidificação costuma ocorrer em praias inclinadas de alta energia, mas a espécie também usa trechos de praia bastante perturbados por atividade humana, incluindo um ninho já registrado em uma praia pública movimentada em Alexandria.

Comunicação

A comunicação entre tartarugas-comuns depende sobretudo de sinais visuais e táteis, especialmente durante o courtship, quando o macho nuzila, mordisca e movimenta cabeça e nadadeiras junto à fêmea; secreções glandulares, possivelmente da glândula de Rathke, também podem ajudar a aproximar os sexos por via química.

A percepção sensorial é altamente desenvolvida logo desde o nascimento. Ao emergir do ninho, geralmente à noite, os filhotes orientam-se pela luz mais brilhante no horizonte — historicamente o brilho da lua e das estrelas sobre o oceano — e também percebem a inclinação da praia, dirigindo-se para o ponto mais baixo. Uma vez na água, usam sinais químicos e magnéticos para se posicionar nas correntes onde passarão a próxima década da vida.

Durante a fase juvenil e adulta, sinais químicos e magnéticos continuam orientando as migrações: a espécie utiliza referências do próprio local, não a memória de trajetos passados, o que caracteriza uma navegação baseada em mapas. O alimento, por sua vez, é localizado principalmente pela visão ou pelo olfato.

Dieta e Nutrição

A tartaruga-comum é essencialmente carnívora, mas também consome algas e plantas vasculares, o que a torna, na prática, onívora. Sua cabeça enorme e mandíbulas extremamente potentes a tornam especialmente adaptada a presas de casca dura, como o caranguejo-ferradura (Limulus polyphemus), bivalves, cracas, búzios e caramujos marinhos.

Como generalista alimentar, a espécie também se alimenta de esponjas, águas-vivas, cefalópodes, camarões, insetos, ouriços-do-mar, peixes e ovos de peixes de gêneros como Brevoortia, Ceratoscopelus e Diodon. Entre os vegetais consumidos estão algas como Ascophyllum, Ulothrix, Urospora e Sargassum, além de plantas marinhas como Cymodocea, Thalassia e Zostera.

Há pequenas variações na dieta entre as fases de vida, mas o padrão generalista se mantém do estágio juvenil até a idade adulta — uma flexibilidade alimentar que ajuda a explicar por que a espécie ocupa habitats tão diversos, de mangues rasos a mar aberto.

Nidificação e Reprodução

O acasalamento da tartaruga-comum costuma ocorrer ao longo das rotas de migração entre as áreas de alimentação e as praias de nidificação, não nas proximidades da própria praia. No hemisfério norte, o acasalamento vai de fim de março a início de junho; os machos permanecem nas águas ao largo da praia de nidificação, enquanto as fêmeas alternam entre acasalar no mar, nidificar em terra e se alimentar em estuários e recifes.

O courtship inclui aproximação do macho, tentativa de montar a fêmea, e um período de circulação mútua entre os dois animais; se houver machos concorrentes, pode haver disputa física, com mordidas que danificam nadadeiras e cauda do rival. As garras curvas do macho costumam ferir os ombros da carapaça da fêmea durante a cópula, que pode durar horas. De forma pouco comum fora dos mamíferos, a ovulação nas fêmeas parece ser induzida pelo próprio ato de acasalar, e uma única ninhada pode ter até sete pais diferentes, já que as fêmeas armazenam esperma de múltiplos machos nos ovidutos.

A fêmea sai da água, sobe a praia, escava uma cova com as nadadeiras traseiras e deposita entre 110 e 130 ovos redondos por ninhada — média de 112,4 ovos —, processo que dura de uma a duas horas. Ela retorna a intervalos de 12 a 17 dias para depositar novas ninhadas, com média de 3,9 ninhadas por temporada, e depois entra em período de repouso reprodutivo de dois a três anos. A temporada de nidificação vai de maio a agosto no hemisfério norte e de outubro a março no hemisfério sul.

Os ovos incubam por 45 a 80 dias, dependendo da temperatura da areia. Não há qualquer cuidado parental após a postura: a fêmea investe energia apenas na produção do vitelo que nutrirá o embrião e no próprio esforço da migração e da nidificação, enquanto os filhotes, ao emergir, seguem sozinhos rumo ao mar.

População e Papel Ecológico

A tartaruga-comum é descrita como espécie-chave (keystone species) pelo impacto que exerce sobre o ecossistema: ao se alimentar de grandes quantidades de invertebrados de casca dura, ajuda a controlar essas populações e libera fragmentos de concha que servem de fonte de cálcio para outros organismos. Além disso, uma parcela substancial dos ovos postos nunca chega a eclodir, servindo de alimento para predadores terrestres.

A carapaça de cada indivíduo funciona quase como um recife móvel: mais de 100 espécies de 13 filos, além de cracas, algas e camarões-esqueleto, podem viver sobre ela. Os predadores variam conforme a fase de vida — ovos e ninhos são atacados por caranguejos-fantasma, formigas, larvas de mosca, guaxinins, raposas-vermelhas, cães e gatos ferais e humanos; filhotes recém-emergidos são caçados por aves marinhas, crustáceos e répteis; já os adultos, protegidos pelo tamanho, são raramente atacados, embora até 40% das fêmeas nidificantes apresentem cicatrizes atribuídas a ataques de tubarão.

Essa pressão de predação pode ser dramática em escala local: na Austrália, a introdução histórica da raposa-vermelha destruiu até 95% das ninhadas em alguns trechos costeiros durante a década de 1970, e no sudeste dos Estados Unidos guaxinins urbanos chegaram a destruir quase 100% das ninhadas em certas praias da Flórida antes da adoção de telas de proteção.

Conservação e Ameaças

A Caretta caretta está classificada como Vulnerável pela IUCN, é listada como Ameaçada (Threatened) pelo Endangered Species Act dos Estados Unidos e consta no Apêndice I da CITES, o que proíbe o comércio internacional da espécie. A principal causa de declínio no mundo é a captura acidental em equipamentos de pesca — espinhéis, redes de emalhe e redes de arrasto de camarão —, seguida pela exploração direta de adultos e ovos para consumo humano, ainda praticada em países onde a legislação é pouco fiscalizada, como no México, onde os ovos são consumidos e considerados afrodisíacos por populações locais, apesar do risco de contaminação por bactérias como Pseudomonas aeruginosa e de acúmulo de metais tóxicos.

Outras ameaças relevantes incluem a urbanização das praias, a iluminação artificial que desorienta filhotes recém-emergidos e causa dezenas de milhares de mortes por ano, o aumento de predadores associados a ambientes humanos, como guaxinins, colisões com embarcações, dragagens costeiras e a ingestão de plástico — os filhotes confundem sacos e fragmentos plásticos flutuantes com águas-vivas, o que provoca obstrução intestinal, desnutrição e liberação de compostos tóxicos nos tecidos. Mudanças climáticas ameaçam ainda alterar a proporção de sexos nos ninhos e destruir praias de nidificação por elevação do nível do mar.

Nos Estados Unidos, dispositivos de exclusão de tartarugas (TEDs) são obrigatórios em redes comerciais de pesca de camarão, e o país já embargou a importação de camarão pescado sem essas proteções em outros países; ainda assim, as populações em águas norte-americanas continuam em declínio.

Status de conservação

  1. LC
  2. NT
  3. VU
  4. EN
  5. CR

Vulnerável

Significado Cultural

Tartarugas marinhas, incluindo a Caretta caretta, aparecem na arte e na mitologia antigas associadas a ideias de sabedoria, longevidade e conexão com o mar. Na mitologia grega, a tartaruga era vista com grande respeito, refletindo a antiguidade evolutiva do grupo, cujos ancestrais já existiam na época dos dinossauros.

Para os seres humanos de hoje, a espécie tem valor tanto simbólico quanto econômico direto: é uma atração central do ecoturismo, buscada por mergulhadores e por quem deseja observar o processo de nidificação nas praias. Por ser a tartaruga marinha mais comum em águas dos Estados Unidos, é também a espécie mais estudada cientificamente entre as tartarugas marinhas.

Ao mesmo tempo, em partes da América Central e do Sul, da África, da Ásia e do Mediterrâneo, a tartaruga-comum e seus ovos continuam sendo explorados como alimento, uma prática que persiste apesar das restrições legais em vários desses países.

Curiosidades

  1. Em Zakynthos, na Grécia, autoridades locais proíbem pousos e decolagens noturnas de aviões por causa das fêmeas que nidificam na praia.
  2. Um estudo de 2018 da Universidade Estadual da Flórida encontrou em média 33.000 pequenos organismos vivendo sobre a carapaça de cada tartaruga examinada, e um único indivíduo abrigava cerca de 150.000 organismos.
  3. A fêmea Adelita cruzou o Pacífico rastreada por satélite em 1996, percorrendo cerca de 14.500 km entre o México e o Japão — o primeiro animal de qualquer espécie já rastreado ao longo de uma bacia oceânica inteira.
  4. O crânio da espécie é reconhecível porque os ossos maxilares se encontram na linha média do palato, uma característica que a distingue de outras tartarugas marinhas.
  5. Em fevereiro de 2015, uma tartaruga-comum viva foi encontrada flutuando, entorpecida pelo frio, em águas da Colúmbia Britânica, no Canadá, com a carapaça coberta de algas.
  6. Estimativas indicam que a espécie pode viver até 77 anos.

Ecologia

Habitat

  • Zona Úmida
  • Marinha
  • Costeira

Comportamento

  • Solitário
  • Territorial
  • Diurno
  • Migratório

Dieta

  • Onívora

Fotos

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Uma tartaruga-verde adulta nadando em águas costeiras claras, com carapaça achatada em tom oliva a marrom e nadadeiras dianteiras em forma de remo.Foto: Ella McCausland, CC BY

FontesGBIFiNaturalistWikidataWikipediaEncyclopedia of LifeAnimal Diversity WebAnAge