O nome "tartaruga-verde" não vem da cor da carapaça, que varia do oliva ao quase preto, mas da gordura verde encontrada sob o casco do animal, resultado direto de sua dieta baseada em gramíneas marinhas.
A tartaruga-verde é a única espécie do género Chelonia, pertencente à família Cheloniidae, e ocorre em mares tropicais e subtropicais de todo o mundo, com duas populações geneticamente distintas no Atlântico e no Pacífico oriental, além de presença no Oceano Índico. É classificada como espécie em risco de extinção.
Poucos animais marinhos mudam tanto ao longo da vida como esta tartaruga: nasce carnívora e oceânica, e transforma-se, já adulta, numa das poucas espécies de répteis marinhos verdadeiramente herbívoras, com um papel direto na saúde dos campos de algas marinhas de que depende.
Identificação e Aparência
O traço mais útil para reconhecer a tartaruga-verde é a presença de uma única garra em cada nadadeira dianteira do adulto — a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), sua parente próxima, tem duas. O bico da tartaruga-verde é curto e não possui a ponta em gancho característica daquela espécie, e a cabeça apresenta um único par de escamas pré-frontais.
Em tamanho, os adultos atingem cerca de 1,5 metro de comprimento total, com carapaça entre 78 e 112 cm e peso médio próximo de 160 kg. Exemplares excepcionais podem superar os 315 kg, e o maior indivíduo já registado pesava 395 kg e media 153 cm de carapaça.
A coloração muda de forma marcada ao longo da vida: os filhotes nascem com carapaça quase preta e plastrão claro; os juvenis desenvolvem tons castanho-escuro a oliva; e os adultos apresentam carapaça castanha, manchada ou marmoreada com raios variegados, sobre um plastrão amarelado. As nadadeiras são escuras, com bordas amarelas e uma mancha castanho-escura central bem visível.
Machos e fêmeas distinguem-se na idade adulta: os machos têm cauda visivelmente mais longa, que se estende para além da carapaça, e garras dianteiras mais longas do que as das fêmeas.
Distribuição e Habitat
A tartaruga-verde ocorre em águas tropicais e subtropicais de todo o globo, entre aproximadamente 30°N e 30°S, limitada principalmente por temperaturas oceânicas abaixo de 7 a 10 °C. Existem duas populações geneticamente distintas — a do Atlântico/Mediterrâneo e a do Pacífico/Índico —, separadas historicamente pelas pontas meridionais frias da América do Sul e da África.
A espécie está presente em águas costeiras de mais de 140 países e nidifica em mais de 80, o que faz dela uma das tartarugas marinhas com distribuição mais ampla. Ao longo da costa dos Estados Unidos, por exemplo, ocorre do Texas a Massachusetts no Atlântico e do sul da Califórnia até ao Alasca no Pacífico, com as maiores concentrações no Havai e na Florida; globalmente, as maiores populações encontram-se na Grande Barreira de Coral, na Austrália, e no mar do Caribe.
O habitat muda com a fase de vida: filhotes e juvenis passam os primeiros anos na zona pelágica de mar aberto, em zonas de convergência oceânica, raramente vistos por serem de águas profundas; já os adultos concentram-se em baías costeiras pouco profundas, lagoas e recifes de coral, sobretudo onde existem extensos campos de gramíneas marinhas, essenciais à sua alimentação.
Dados de observações mensais mostram contagens mais altas entre março e junho, com um pico em maio — um padrão de presença que pode refletir maior atividade sazonal em águas costeiras, embora estas contagens reflitam apenas registos de avistamento e não a dimensão real da população.

Comportamento e Modo de Vida
A tartaruga-verde passa a maior parte da vida submersa, mas depende do ar atmosférico: durante a atividade rotineira, mergulha entre quatro e cinco minutos e sobe à superfície para respirar durante apenas um a três segundos, com uma expiração explosiva seguida de inspiração rápida. Percorre entre 20 e 90 km por dia entre zonas de alimentação, descanso e reprodução, a uma velocidade de cruzeiro de 2,5 a 3 km/h.
Durante a noite, os adultos costumam encaixar-se sob rochas ou saliências de recifes para dormir, e muitos indivíduos regressam ao mesmo local de repouso noite após noite, um comportamento observado repetidamente em populações estudadas.
A espécie viaja em grupos que costumam ter origem na mesma praia natal, mantendo áreas de uso que variam entre 3,8 e 642,2 hectares, mas sem defesa territorial ativa. Na época de reprodução, os casais em cópula são frequentemente abordados por machos "escoltas", que tentam separar o macho acasalado da fêmea agarrando-se ao par durante horas.
A ecologia da espécie muda radicalmente com a idade: os recém-nascidos são carnívoros e vivem no plâncton do oceano aberto, enquanto juvenis e adultos se tornam herbívoros pastando em campos de gramíneas marinhas junto à costa — uma das transições alimentares mais marcantes entre os répteis marinhos.
Comunicação
A visão é o sentido dominante desta espécie, usada tanto para localizar alimento e parceiros como para exibições visuais durante o acasalamento. As tartarugas também percebem a direção de propagação das ondas através do ouvido interno, o que as ajuda a orientar-se em mergulhos profundos, e utilizam sinais magnéticos para se guiarem em mar aberto.
Durante o acasalamento, as fêmeas comunicam aceitação ou rejeição através de posturas corporais. A aceitação é expressa por submissão completa ao serem montadas pelo macho; a rejeição pode ser feita nadando para longe com as patas traseiras fechadas ou mordendo o macho que se aproxima demasiado. Existe ainda uma postura de "recusa", em que a fêmea flutua com o plastrão voltado para o macho e todos os membros estendidos, sinalizando claramente que não deseja copular.
Caça e Dieta
Nos primeiros anos de vida, a tartaruga-verde comporta-se como uma predadora oportunista de pequenos invertebrados e organismos do nêuston oceânico: usa a visão para localizar hidrozoários, briozoários, ovos da lebre-do-mar (Aplysia) e zooplâncton em geral, capturando presas dispersas na coluna de água aberta.
Com o crescimento, a dieta desloca-se progressivamente para o herbivorismo. Os indivíduos maiores passam a consumir grandes quantidades de plantas de mangal e sapais, como Avicennia schaueriana e a gramínea-salgada Spartina alterniflora, além de uma variedade de algas vermelhas e verdes — entre elas Bostrychia, Caloglossa, Compsopogon, Polysiphonia, Ulva lactuca, Gayralia e Rhizoclonium.
Como é uma espécie altamente móvel ao longo de toda a vida, a escolha do alimento é bastante oportunista, variando conforme a disponibilidade local de algas e gramíneas marinhas em cada habitat visitado.
Ao pastar, a tartaruga-verde corta apenas a parte superior das plantas de gramíneas marinhas, deixando as raízes intactas — uma técnica de alimentação que favorece o crescimento contínuo desses campos, em vez de destruí-los.
Nidificação e Reprodução
O sistema de acasalamento é poliginândrico, com machos e fêmeas tendo múltiplos parceiros. O macho aproxima-se e examina visualmente a fêmea; se ela aceita, ele monta sobre o seu dorso agarrando-se às "entalhes de acasalamento" próximas dos ombros dela, e a cópula ocorre em águas pouco profundas junto às praias de nidificação. A duração pode chegar a várias horas, com o episódio mais longo já registado atingindo 119 horas, e machos "escoltas" tentam frequentemente deslocar o parceiro já acasalado.
As fêmeas regressam à praia natal em intervalos de dois a quatro anos para nidificar, entre junho e setembro; quando não conseguem voltar ao local exato, escolhem praias com textura e cor de areia semelhantes. O processo de nidificação segue etapas previsíveis: a fêmea sobe à praia, limpa a área de detritos, escava um buraco com as patas dianteiras, deposita os ovos, cobre o ninho com areia para camuflá-lo e regressa ao mar.
Cada fêmea pode depositar entre uma e nove ninhadas por temporada, com média de três, e cada ninhada contém entre 75 e 200 ovos, com média em torno de 136 a 150. A incubação dura entre 45 e 75 dias, e os filhotes nascem pesando cerca de 26 gramas. A temperatura do ninho determina o sexo: acima de 30 °C predominam fêmeas, abaixo desse valor predominam machos, e os ovos no centro do ninho — mais aquecidos — tendem a gerar mais fêmeas.
Não há qualquer cuidado parental além da escolha do local e da camuflagem do ninho pela fêmea. Após a eclosão, os filhotes seguem sozinhos até ao mar e entram numa fase juvenil que pode durar entre 27 e 50 anos, até atingirem a maturidade sexual.
População e Papel Ecológico
A tartaruga-verde desempenha um papel ecológico direto na manutenção dos campos de gramíneas marinhas de que se alimenta: ao pastar apenas a parte superior das plantas, favorece o crescimento contínuo da vegetação, e as suas fezes, ricas em azoto, funcionam como fertilizante natural para esses ecossistemas costeiros.
Os adultos têm poucos predadores naturais além do ser humano; os tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier) são o principal predador natural, caçando tartarugas de todos os tamanhos, sobretudo junto às praias de nidificação, onde os animais ficam mais vulneráveis. Filhotes e juvenis enfrentam muito mais ameaças, incluindo caranguejos, pequenos mamíferos marinhos e aves costeiras, enquanto os ovos são predados por raposas-vermelhas e chacais-dourados em algumas regiões.
A espécie também sofre com uma carga parasitária considerável — trematódeos como Learedius leardei, Carettacola hawaiiensis e espécies de Hapalotrema causam lesões cardiovasculares graves, enquanto craca, sanguessugas, protozoários, cestóides e nematódeos afetam pele, fígado e intestino. A maior ameaça sanitária é o fibropapiloma, doença causada por um herpesvírus transmitido pela sanguessuga Ozobranchus branchiatus, que provoca tumores letais em escamas, pulmões, estômago e rins.
Conservação e Ameaças
A tartaruga-verde está classificada como Em Perigo na Lista Vermelha da IUCN e consta do Apêndice I da CITES, o que proíbe o seu comércio internacional exceto para fins de investigação, sob permissão específica. Nos Estados Unidos, populações do Mediterrâneo e do Pacífico Central Ocidental e Sul são classificadas como ameaçadas de extinção, enquanto a maioria das restantes populações é considerada apenas "threatened" (menos crítica).
A maior ameaça é a pesca marinha, que captura tartarugas adultas e juvenis tanto em áreas de alimentação como em praias de nidificação, através de arpoamento, captura manual, redes, laços e viragem dos animais sobre o dorso. A luz artificial constitui outra ameaça significativa: as tartarugas confundem-na com a luz solar, o que desorienta fêmeas nidificantes e filhotes, alterando o percurso de regresso ao mar e provocando construção incompleta de ninhos.
Os esforços de conservação incluem a aplicação de leis contra a captura de tartarugas em terra e no mar pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem e pelo Serviço Nacional de Pescas Marinhas dos EUA, além de acordos internacionais como o Memorando de Entendimento da ASEAN sobre Conservação de Tartarugas Marinhas, o memorando para a conservação de tartarugas na costa atlântica africana e a Convenção Interamericana para a Proteção e Conservação das Tartarugas Marinhas.
Significado Cultural
O nome do género Chelonia vem do grego Χελώνη (Khelônê), termo com que os antigos gregos identificavam as tartarugas. Segundo o mito, Khelônê era uma ninfa transformada em tartaruga por Zeus como castigo pela sua insolência, ficando condenada a carregar a sua casa sobre os ombros para sempre. O epíteto mydas também tem origem grega e significa "húmido", referência ao seu habitat aquático.
Para diversos povos das Primeiras Nações da Austrália, as tartarugas marinhas, incluindo a tartaruga-verde, têm profundo significado espiritual e cultural, além de serem tradicionalmente usadas como fonte de alimento; a espécie é uma das seis tartarugas marinhas encontradas em águas australianas.
Apesar das proteções legais em muitos países, a tartaruga-verde continua a ser caçada furtivamente por ovos e carne em certas regiões do Sudeste Asiático, e as suas carapaças são usadas como decoração ou transformadas em joalharia.
Curiosidades
- A tartaruga-verde pode atingir velocidades de até 40 milhas por hora (cerca de 64 km/h) em explosões de natação, o que a torna a tartaruga marinha mais veloz conhecida.
- O episódio de cópula mais longo já registado nesta espécie durou 119 horas seguidas.
- A população das Galápagos foi durante décadas considerada uma espécie separada, Chelonia agassizii; análises de DNA mitocondrial e nuclear demonstraram tratar-se apenas de uma variante local da mesma Chelonia mydas.
- O maior exemplar já registado pesava 395 kg e tinha uma carapaça de 153 cm de comprimento — quase o dobro do tamanho médio de um adulto típico.
- Nos recifes de coral, a tartaruga-verde mantém uma relação simbiótica com o peixe-cirurgião amarelo (Zebrasoma flavescens), que se alimenta das algas, cracas e parasitas presentes na sua carapaça e nadadeiras, ajudando a manter o casco limpo e reduzindo o atrito durante a natação.
Ecologia
Habitat
- Zona Úmida
- Marinha
- Costeira
Comportamento
- Predador
- Aquático
- Social
- Migratório
Dieta
- Onívora
Fotos
FontesGBIFiNaturalistWikidataWikipediaEncyclopedia of LifeAnimal Diversity WebAnAge



