Caçada durante séculos pelo brilho âmbar do seu casco, a tartaruga-de-pente é hoje uma das espécies de tartaruga marinha mais ameaçadas do planeta, classificada como Criticamente Ameaçada pela IUCN.
Pertencente à família Cheloniidae, é a única espécie viva do género Eretmochelys e distribui-se por águas marinhas e estuarinas tropicais e subtropicais em praticamente todos os oceanos do globo.
A combinação de um casco serrilhado único, hábitos alimentares altamente especializados e uma longa história de exploração humana faz desta tartaruga um dos casos mais urgentes de conservação marinha da atualidade.
Identificação e Aparência
O traço mais fácil de identificar na tartaruga-de-pente é a borda serrilhada do casco: os escudos posteriores sobrepõem-se de forma a dar à margem traseira da carapaça um aspeto de serra ou faca de carne, diferente de todas as outras tartarugas marinhas.
Os adultos atingem cerca de 1 metro de comprimento de casco e pesam em média perto de 80 kg, embora o maior exemplar já capturado tenha alcançado 127 kg. A cabeça é alongada e afunilada, terminando num bico pronunciado e curvo, mais acentuado do que em qualquer outra espécie de tartaruga marinha, o que lhe dá o nome comum em várias línguas. Cada nadadeira dianteira apresenta duas garras visíveis.
A carapaça tem fundo âmbar com um padrão irregular de riscas claras e escuras, predominando tons de preto e castanho amarronzado nas margens. Os machos exibem pigmentação mais intensa do que as fêmeas, uma diferença cujo papel comportamental ainda é apenas especulado. No rasto que deixa na areia, o andar alternado da tartaruga-de-pente produz pegadas assimétricas, ao contrário do rasto simétrico das tartarugas-verdes e das tartarugas-de-couro.
Distribuição e Habitat
A tartaruga-de-pente ocorre em águas tropicais e subtropicais dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, com duas subpopulações principais reconhecidas: uma atlântica e outra indo-pacífica.
Os adultos associam-se sobretudo a recifes de coral, onde descansam em grutas e saliências durante o dia, mas também frequentam fundos rocosos, manguezais, estuários e lagoas de fundo lodoso sem vegetação, raramente descendo além de 18 metros de profundidade. Os juvenis, incapazes de mergulhar em águas profundas, permanecem em mares abertos junto a manchas de algas flutuantes, como o sargaço, onde se escondem de predadores.
Apesar de outrora se pensar que eram sedentárias, sabe-se hoje que a espécie realiza migrações de longa distância entre áreas de alimentação e praias de nidificação distantes.
Registos de observação ao longo do ano mostram contagens mais elevadas entre julho e outubro, com um pico em agosto, período que coincide com a principal época de nidificação em várias populações; estes números refletem apenas presença registada, não densidade populacional real.

Comportamento e Modo de Vida
De hábitos predominantemente diurnos, exceto durante a época de acasalamento, a tartaruga-de-pente percorre recifes e plataformas continentais em busca de alimento, deslocando-se sozinha na maior parte do tempo.
Embora se pensasse durante muito tempo que permanecia numa área fixa ao longo da vida, estudos recentes revelaram migrações de longas distâncias entre zonas de alimentação e de reprodução.
O casco rígido e a forma corporal permitem-lhe inserir-se em fendas e cavidades estreitas dos recifes, um comportamento que utiliza tanto para se alimentar como para se abrigar de predadores.
Os juvenis, mais vulneráveis, procuram ativamente esconderijos entre estruturas do recife e vegetação flutuante para minimizar a deteção por predadores.
Comunicação
A comunicação da tartaruga-de-pente baseia-se principalmente em sinais visuais e táteis, usados sobretudo em comportamentos rituais durante o acasalamento.
Para localizar as praias de nascimento e regressar a elas anos depois, acredita-se que a espécie se oriente por campos magnéticos e pelas fases e posição da lua, embora os mecanismos exatos permaneçam desconhecidos.
Além dos canais visual e tátil, a espécie possui também perceção acústica, química e magnética, que provavelmente contribuem para a orientação e o reconhecimento de parceiros e do ambiente.
Dieta e Nutrição
A tartaruga-de-pente alimenta-se principalmente de esponjas, mostrando um grau elevado de seletividade: consome apenas certas espécies, incluindo algumas que são tóxicas para outros animais.
Águas-vivas e outros cnidários fazem também parte regular da sua dieta, complementada por moluscos, peixes, crustáceos, algas marinhas e macroalgas, o que a torna uma espécie omnívora.
Uma das suas zonas de alimentação preferidas são baixios pouco profundos ricos em algas castanhas, onde encontra abundância dos recursos que procura.
Essa dieta especializada em esponjas e cnidários explica, em parte, por que a carne desta espécie pode acumular toxinas provenientes das presas venenosas que ingere.
Nidificação e Reprodução
O acasalamento da tartaruga-de-pente ocorre a cada dois a três anos, geralmente em águas pouco profundas próximas das praias de nidificação, onde os machos esperam a chegada das fêmeas; a época varia por região, estendendo-se de abril a novembro no Atlântico e de setembro a fevereiro nas populações do Oceano Índico, como a das Seychelles.
Após o acasalamento, a fêmea arrasta-se de noite até um ponto alto da praia, limpa a área de detritos e escava um buraco com as nadadeiras traseiras. Todo o processo de nidificação dura entre uma e três horas: a fêmea deposita os ovos, cobre o ninho com areia e regressa ao mar.
Cada fêmea põe cerca de 140 ovos por ninhada, com até três ninhadas por ano espaçadas de treze a quinze dias, geralmente entre julho e outubro nas populações do Caribe e da Florida. Os ovos incubam durante cerca de 60 dias, sem qualquer cuidado parental após a postura.
Os filhotes nascem à noite, pesando menos de 24 gramas e com um casco em forma de coração de apenas 2,5 cm, e dirigem-se ao mar guiados pelo reflexo da lua na água — um trajeto perigoso, já que luzes artificiais podem desorientá-los e aqueles que não alcançam o oceano antes do amanhecer são presas fáceis de aves costeiras e caranguejos.
População e Papel Ecológico
Avaliar com precisão o tamanho e a tendência da população da tartaruga-de-pente é difícil, dado o seu comportamento migratório e a distribuição global, além da escassez de dados históricos sobre os níveis populacionais originais.
Ecologicamente, a espécie desempenha um papel importante nos recifes de coral: ao alimentar-se seletivamente de esponjas, favorece processos de sucessão que libertam espaço para o assentamento de outros organismos recifais, ajudando a moldar a estrutura do habitat.
Conservação e Ameaças
A tartaruga-de-pente está classificada como Criticamente Ameaçada pela IUCN, está listada como Ameaçada na lista federal dos Estados Unidos e consta do Apêndice I da CITES, o que torna ilegal o comércio internacional dos seus produtos.
Historicamente, a principal ameaça foi a caça direta para obtenção de carne, ovos e, sobretudo, das escamas do casco, usadas na fabricação de objetos ornamentais. A proibição global do comércio de produtos derivados da tartaruga-de-pente visa reduzir a pressão exercida pelo seu principal predador: o ser humano.
Programas de conservação como o Florida Hawksbill Project monitorizam populações em recifes do sudeste da Florida e promovem educação junto de mergulhadores, enquanto nas Seychelles a proteção legal da espécie desde 1994 na ilha de Cousine já mostra sinais de recuperação populacional. A eficácia da conservação depende da cooperação entre todas as nações que partilham águas com populações desta tartaruga, dado o seu carácter altamente migratório.
Status de conservação
- LC
- NT
- VU
- EN
- CR
Criticamente em Perigo
Significado Cultural
Desde o Antigo Egito, escamas e placas de casco de tartarugas do Mar Vermelho, entre elas a tartaruga-de-pente, eram usadas na fabricação de anéis e outros objetos ornamentais, revelando um uso decorativo muito antigo da espécie.
Em diversas culturas costeiras e insulares, as tartarugas marinhas ocupam um lugar central no folclore e na mitologia, sendo associadas à longevidade, à sabedoria e ao próprio mar; entre os Rapa Nui e outros povos do Pacífico, aparecem representadas na arte, nos rituais e na vida espiritual.
Para além do valor simbólico, a espécie foi historicamente explorada como alimento — carne e ovos — e como fonte de material valioso extraído do seu casco, um uso que impulsionou grande parte da pressão de caça sofrida pela espécie.
Curiosidades
- O nome popular "tartaruga-de-pente" faz referência ao aspeto serrilhado, semelhante a um pente ou a uma serra, da borda posterior do seu casco.
- O maior exemplar já registado pesava 127 kg, bem acima da média de 80 kg dos adultos.
- É o primeiro réptil documentado a apresentar biofluorescência, brilhando sob luz azul possivelmente devido à sua dieta rica em corais e organismos igualmente biofluorescentes.
- Os ninhos desta espécie já foram registados em praias de cerca de 60 países ao redor do mundo.
- Os filhotes nascem pesando menos de 24 gramas, com um casco de apenas 2,5 cm de comprimento.
- No Antigo Egito, as escamas do casco de tartarugas do Mar Vermelho, entre as quais a tartaruga-de-pente, eram usadas na fabricação de anéis.
Ecologia
Habitat
- Zona Úmida
- Marinha
- Costeira
Comportamento
- Solitário
- Aquático
- Diurno
- Migratório
Dieta
- Onívora
Fotos
FontesGBIFiNaturalistWikidataWikipediaEncyclopedia of LifeAnimal Diversity WebAnAge


