Correndo a velocidades de até 104 km/h, a chita (Acinonyx jubatus) é o mamífero terrestre mais veloz do planeta — registros pontuais já chegaram a marcar 112 km/h em disparos curtos.
Única espécie viva do gênero Acinonyx, dentro da família Felidae, a chita ocupa hoje savanas e regiões áridas da África, com uma pequena população remanescente no Irã. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica a espécie como Vulnerável.
Por trás dessa velocidade extrema existe um corpo moldado pela evolução quase exclusivamente para a corrida — e um custo genético e ecológico que ajuda a explicar por que a espécie enfrenta hoje tantas ameaças.
Identificação e Aparência
O traço mais útil para reconhecer a chita são as listras faciais escuras em formato de lágrima, que descem dos olhos até a boca, combinadas com manchas pretas sólidas e arredondadas pelo corpo — diferente do leopardo, que tem rosetas em vez de manchas e não possui essas listras, e do serval, cujas manchas se fundem em listras nas costas. A cabeça é pequena e arredondada, com focinho curto.
Em tamanho, a chita mede entre 67 e 94 cm de altura na cratera dos ombros, com comprimento de cabeça e corpo entre 1,1 e 1,5 m, além de uma cauda longa de 60 a 80 cm, terminada em um tufo branco e marcada por quatro a seis anéis escuros no terço final. O peso varia de 21 a 65 kg, e a espécie apresenta dimorfismo sexual, com fêmeas menores que os machos.
A pelagem vai do amarelo-acastanhado ao branco-creme ou bege-pálido, mais escura na região central das costas, com o queixo, a garganta e o ventre brancos e sem marcas. O restante do corpo exibe cerca de 2.000 manchas pretas, ovais ou redondas, de 3 a 5 cm cada, formando um padrão único em cada indivíduo. Uma juba curta e áspera cobre pelo menos 8 cm do pescoço e dos ombros, mais evidente nos machos; nos filhotes, essa região é coberta por uma capa de pelos longos, azulados a acinzentados, que desaparece com a idade. Variações raras incluem indivíduos melânicos observados na Zâmbia e no Zimbábue, exemplares parcialmente albinos descritos na África do Sul em 1877–1878 e uma chita com padrão tipo tabby fotografada no Quênia em 2012.
A anatomia da chita é moldada para o sprint: os músculos da coxa são cerca de 50% mais pesados do que o esperado para um mamífero quadrúpede de seu porte, com concentração de fibras musculares de contração rápida chegando a 50,1% nos membros posteriores. Os seios frontais do crânio são os maiores entre os felídeos, o que provavelmente ajuda a resfriar o ar inalado durante as corridas intensas.
Distribuição e Habitat
A chita ocorre hoje sobretudo na África subsaariana, em savanas como o Kalahari e o Serengeti, além de cadeias montanhosas áridas da África central, do norte e do oeste, incluindo maciços do Saara que recebem mais chuva do que o deserto ao redor e sustentam populações de antílopes. Uma população remanescente da subespécie asiática vive em terrenos acidentados e desérticos do Irã, em altitudes de 2.000 a 3.000 m, onde a precipitação anual costuma ficar abaixo de 100 mm e a vegetação predominante são arbustos esparsos com menos de 1 m de altura.
Historicamente, a espécie se distribuía por toda a África e por partes da Ásia ocidental e central, chegando até a Índia. Esse alcance foi drasticamente reduzido: na Índia, os três últimos indivíduos selvagens foram mortos em 1947 por ordem do marajá de Surguja, e o último registro confirmado no país foi de uma chita afogada em um poço perto de Hyderabad, em 1957. Em 2017, a espécie ocupava apenas cerca de 9% de seu antigo alcance africano, em grande parte fora de áreas protegidas.
A chita prefere paisagens abertas com alguma cobertura, como arbustos dispersos, que favorecem a perseguição de presas e reduzem o risco de encontro com predadores maiores; raramente ocorre em florestas tropicais densas, embora já tenha sido registrada a 4.000 m de altitude. Suas densidades populacionais são baixas, entre 0,3 e 3,0 adultos por 100 km², equivalente a apenas 10% a 30% das densidades registradas para leopardos e leões — um reflexo da grande área que cada indivíduo precisa para caçar.
Registros mensais de observação mostram presença relativamente constante da espécie ao longo do ano, com um leve pico em julho e agosto. Esses números representam apenas observações de presença, não uma medida de abundância ou do alcance completo da espécie, e podem refletir variações na atividade de observadores ou na visibilidade sazonal.

Comportamento e Modo de Vida
A chita é essencialmente diurna, mais ativa do amanhecer ao meio-dia, com atividade decrescente ao longo da tarde e um breve pico ao anoitecer. Esse padrão ajuda a evitar predadores maiores em áreas onde convivem, como no Delta do Okavango. Em regiões extremamente quentes, como fazendas de Botsuana e Namíbia ou o deserto do Saara, onde as temperaturas diurnas chegam a 43 °C, a atividade se desloca para a noite; noites de lua cheia também aumentam a atividade dos indivíduos.
As fêmeas levam vida essencialmente solitária, exceto quando acompanhadas de filhotes; seus territórios se sobrepõem, mas não há socialização — ao se avistarem, duas fêmeas podem simplesmente observar uma à outra a distâncias de até 2 km até que uma se afaste. Filhas tendem a permanecer perto da área da mãe por toda a vida, enquanto os machos jovens dispersam para viver em outro lugar.
Os machos apresentam a estrutura social mais complexa entre os felinos: muitos formam coalizões, geralmente de irmãos da mesma ninhada, embora cerca de 30% dos membros de coalizões no Serengeti sejam machos sem parentesco; no deserto do Kalahari, cerca de 40% dos machos vivem solitários. Machos territoriais marcam a área que defendem urinando, arranhando o solo com as patas traseiras, marcando árvores com as garras e depositando fezes em pontos de destaque, além de se afastarem por poucos dias em busca de fêmeas no cio. Machos não territoriais, chamados de nômades, cobrem grandes distâncias, permanecem discretos, deslocam-se sobretudo após o anoitecer e raramente descansam em locais visíveis; coalizões maiores tendem a manter seus territórios por mais tempo em áreas de forte disputa.
Apesar de sua velocidade, a chita corre riscos frente a predadores maiores: leões e leopardos podem matá-la ou roubar suas presas, e no Serengeti as hienas-malhadas chegam a se apropriar de cerca de 4% das caçadas das chitas. Diante dessas ameaças, a chita reage com vocalizações e investidas de intimidação, e fêmeas já foram observadas afugentando leopardos que ameaçavam seus filhotes.
Comunicação
A chita tem um repertório vocal amplo. O chilrear (ou "stutter-bark"), um som curto e agudo semelhante ao de um pássaro, surge em momentos de excitação, como perto de uma presa recém-abatida, para chamar filhotes escondidos ou como saudação entre adultos; uma variante mais alta, o "yelp", pode ser ouvida a até 2 km e serve para mães e filhotes se reencontrarem. O "churr", um chiado agudo e curto, aparece em contextos parecidos. O ronronar, mais alto do que o dos gatos domésticos, indica contentamento e ocorre em saudações ou ao se lamber mutuamente. Sons agonísticos incluem balidos de aflição, rosnados, silvos e gemidos — geralmente acompanhados de golpes fortes com a pata dianteira no chão — além de miados associados a desconforto. Mães usam chamados repetidos para reunir os filhotes e um alarme grave para que fiquem imóveis diante de perigo; quando membros de uma coalizão se separam, os machos podem vocalizar continuamente por até 20 minutos até se reencontrarem.
A marcação de cheiro é essencial numa espécie predominantemente solitária: machos levantam a cauda e urinam sobre pontos elevados, como troncos, tocos ou rochas, que outros indivíduos cheiram e voltam a marcar; fêmeas marcam com menos frequência, exceto durante o cio, quando podem atrair machos de longas distâncias. Câmeras instaladas em locais de marcação na Namíbia registraram que as chitas defecam nesses pontos com frequência muito maior do que os leopardos.
O contato visual e tátil também comunica: encontros sociais envolvem cheirar mutuamente boca, ânus e genitais, além de se lamberem e esfregarem as bochechas. As listras faciais ajudam a definir expressões a curta distância, e acredita-se que os anéis claros e escuros da cauda sirvam para que os filhotes sigam a mãe.
Caça e Dieta
Ao contrário de outros felinos, a chita não se aproxima da presa em emboscada silenciosa até distâncias curtas: ela inicia o ataque a partir de 70 a 100 metros e pode perseguir a presa por até 500 metros, atingindo velocidades entre 80 e 112 km/h. O sucesso da caçada cai bastante quando a corrida começa a mais de 200 metros de distância, e a maioria das tentativas termina em fracasso.
Ao alcançar a presa, a chita a derruba com as patas dianteiras e a mata por estrangulamento, prendendo a garganta com as mandíbulas — técnica também usada por outros felídeos.
A dieta é composta principalmente por gazelas, sobretudo a gazela-de-thomson, além de impalas e outros ungulados de pequeno e médio porte, incluindo filhotes de espécies maiores. Quando essas presas escasseiam, a chita recorre a lebres e aves.
A velocidade máxima não pode ser mantida por mais do que algumas centenas de metros antes que o animal superaqueça, o que explica por que a caçada depende tanto de uma aproximação inicial cuidadosa quanto de um arranque curto e explosivo.
Reprodução e Criação dos Filhotes
A chita tem sistema de reprodução promíscuo: os machos não prestam cuidado parental e se acasalam com o maior número possível de fêmeas, limitados apenas pelo acesso a elas, enquanto as fêmeas vivem de forma essencialmente solitária e podem se reproduzir ao longo de todo o ano, com pico de cópulas na estação chuvosa no Serengeti. As fêmeas são poliéstricas e ovulam de forma induzida, com ciclos que duram em média 12 dias, podendo variar de 3 a 27 dias; o primeiro cio ocorre entre 13 e 16 meses de idade, e a maturidade sexual chega por volta dos 21 a 22 meses.
Quando uma fêmea entra no cio, machos — às vezes dentro da mesma coalizão — competem pelo acesso a ela, e geralmente um deles se impõe, embora a fêmea possa acasalar com mais de um macho. Não há cortejo elaborado: o macho segura a fêmea pela nuca e a cópula ocorre imediatamente, repetindo-se de três a cinco vezes por dia ao longo de dois a três dias antes de o casal se separar.
Após uma gestação de 90 a 95 dias, nasce uma ninhada com média de cerca de dois a três filhotes, podendo variar de um a seis na natureza. As fêmeas têm sua primeira ninhada, em média, aos 2,4 anos de idade, com intervalo médio de cerca de 20 meses entre partos. Os filhotes nascem indefesos, com olhos fechados que se abrem entre 4 e 11 dias, pesando de 250 a 300 gramas na natureza; sua nuca e costas são cobertas por uma capa de pelos longos e acinzentados, que pode funcionar como camuflagem contra predadores e é perdida por volta dos três meses de idade.
A mãe mantém os filhotes escondidos em vegetação densa ou afloramentos rochosos por cerca de oito semanas, amamentando-os pela manhã, mudando-os de esconderijo a cada cinco ou seis dias e permanecendo sempre a menos de 1 km de distância; nessa fase, precisa caçar com sucesso quase todos os dias. A partir dos dois meses, os filhotes passam a acompanhar a mãe, são desmamados entre três e seis meses e aprendem a caçar quando ela solta presas vivas diante deles. A independência chega entre 15 e 17 meses. A mortalidade juvenil é alta: predadores respondem por 58,3% das mortes de filhotes no Serengeti e 88,9% no Parque Transfronteiriço de Kgalagadi, com taxa geral de sobrevivência juvenil entre 34% e 36%. Em cativeiro, a chita pode viver até 20,5 anos.
População e Papel Ecológico
Em 1975, o primeiro levantamento regional, conduzido por Norman Myers, estimou cerca de 15.000 chitas na África subsaariana, distribuídas pela maior parte do leste e do sul do continente, exceto na faixa desértica da costa oeste de Angola e Namíbia. Desde então, as populações se tornaram menores e cada vez mais fragmentadas à medida que seu hábitat natural foi alterado.
O papel ecológico exato da chita ainda é pouco conhecido. Como predadora de ungulados de pequeno e médio porte, como gazelas e impalas, provavelmente contribui para regular essas populações de presas, embora sua baixa densidade populacional e a taxa de sucesso relativamente modesta em suas caçadas sugiram um impacto ecológico mais limitado do que o de grandes carnívoros simpátricos, como os leões.
Conservação e Ameaças
A IUCN classifica a chita como Vulnerável, e o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos a lista como ameaçada em toda a sua área de ocorrência desde 2 de junho de 1970; a espécie também consta no Apêndice I da CITES. Apesar dessas proteções, cotas anuais de caça legal ainda são permitidas no Zimbábue (50 indivíduos), na Namíbia (150) e em Botsuana (5).
As principais ameaças, em ordem de gravidade, são a perda e a fragmentação do hábitat, impulsionadas pela expansão agrícola e industrial e agravadas pelo avanço da vegetação lenhosa no sul da África; a escassez de presas; e o conflito com humanos e outros grandes carnívoros — com 76% do seu alcance situado em terras não protegidas, a chita é frequentemente perseguida por fazendeiros e pastores, sobretudo na Namíbia. O tráfico ilegal de vida selvagem representa um problema em locais como a Etiópia, e atropelamentos em rodovias ameaçam a subespécie asiática em áreas do Irã, como Kalmand, Touran e Bafq. A baixa variabilidade genética da espécie, resultado de um gargalo evolutivo, aumenta sua vulnerabilidade a doenças, embora o risco real de surtos seja considerado baixo devido à densidade populacional reduzida.
Desde a década de 1970, diversas iniciativas buscam reverter esse quadro: o Centro De Wildt para Chitas e Vida Selvagem, criado em 1971 na África do Sul; o Cheetah Conservation Fund, fundado em 1990 na Namíbia, que mantém o único laboratório de genética dedicado à espécie, em Otjiwarongo, além do projeto Bushblok de restauração de hábitat; e o Cheetah Outreach, também sul-africano. Em nível internacional, destacam-se o Global Cheetah Action Plan Workshop (2002), o Range Wide Conservation Program for Cheetah and African Wild Dogs (2007) e o reconhecimento da espécie como prioridade contra o tráfico pela CITES em 2014; a chita foi reintroduzida no Malawi em 2017. No Irã, o Projeto de Conservação da Chita Asiática, iniciado em 2001, reúne parceiros internacionais, e o país instituiu, em 2006, o Dia Nacional da Chita, celebrado em 31 de agosto.
Status de conservação
- LC
- NT
- VU
- EN
- CR
Vulnerável
Significado Cultural
Domada, mas nunca verdadeiramente domesticada, a chita foi usada para caça por cerca de 4.300 anos, desde o antigo Egito, a Suméria e a Assíria, e mais tarde pela nobreza europeia e indiana, que a levava encapuzada, como um falcão, soltando-a apenas quando a presa estava à vista — um método valorizado porque, se tentasse fugir, a chita podia ser recapturada em poucas centenas de metros por um cavaleiro. O imperador mogol Akbar, o Grande, chegou a manter cerca de mil chitas, e seu filho Jahangir registrou que apenas uma delas se reproduziu em cativeiro; a caça intensiva com chitas contribuiu para o declínio da vida selvagem na Índia, a ponto de o país precisar importar chitas da África a partir de 1927.
A espécie também carrega forte carga simbólica: no antigo Egito, a deusa Mafdet era por vezes representada como uma chita, e acreditava-se que o animal carregava os espíritos dos faraós mortos. Chitas de caça aparecem em arte pré-islâmica do Iêmen, em mosaicos romanos como o de Lod, em Israel (século IV), e em pinturas e presentes diplomáticos das dinastias chinesas Tang, Yuan e Ming. No Irã, a chita asiática, chamada "Yuz" em persa, permanece até hoje um motivo recorrente na cultura, na mitologia, no folclore e na poesia locais, ao lado do leão-asiático e do tigre-do-cáspio.
Em outras regiões, comunidades como os massais, na Tanzânia, utilizam peles de chita em cerimônias tradicionais — um uso que hoje entra em conflito direto com os esforços de conservação da espécie.
Curiosidades
- O nome do gênero, Acinonyx, vem do grego "akaina" (espinho) e "onyx" (garra), numa referência às garras semirretráteis da chita.
- As representações mais antigas conhecidas da chita foram encontradas na Caverna de Chauvet, na França, com datação entre 32.000 e 26.000 a.C.
- Revisões taxonômicas recentes passaram a reconhecer quatro subespécies de chita, após a fusão das antigas subespécies A. j. raineyi e A. j. jubatus em uma única linhagem.
- Apesar de ser domada por humanos há milênios para a caça, a chita nunca foi verdadeiramente domesticada: nenhuma linhagem foi selecionada ao longo de gerações para viver como animal de estimação.
- Os romanos talvez confundissem a chita com um híbrido de leopardo e leão, chamando-a de "leopardos", possivelmente por causa da juba clara que cobre o pescoço dos filhotes.
Ecologia
Dieta
- Carnívoro
Comportamento
- Predador
- Solitário
- Territorial
- Diurno
Habitat
- Montanha
- Pradaria
- Savana
- Deserto
Fotos
FontesGBIFiNaturalistWikidataWikipediaEncyclopedia of LifeAnimal Diversity WebAnAge



